quarta-feira, 28/10/26

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O homem alado

Contam as lendas que existe uma figura singular,homem que não
apenas homem: traz asas nas costas, ora de ave que corta os céus com
ora no morcego, que se move na sombra da noite.
Dizem que voa alto, acima do alcance de todos, enxergando o que os
olhos do povo não conseguem. Mas nesta terra, a figura tem outra
feição não é ave livre, nem criatura da noite apenas. É o banqueiro
maxter, que ostenta asas de metal e fumaça, e em lugar de mãos, tem
garras afiadas de vampiro. Não voa com penas ou pele, mas com
motores potentes: aviões e helicópteros que cortam os céus do Brasil e
do mundão. Sobe tão alto que parece intocável, mas cada voo é uma
investida sobre nós. Suas garras não buscam o pescoço à luz da lua,
sugam o sangue do povo de forma mais sutil: tiram do salário, da
comida, do futuro,e o que deveria ser nosso, transforma-se em ouro
dele. E não voa só. Desce e estende suas asas douradas aos que
deveriam zelar pela nação: membros da República, dos três poderes,
seduziu com passeios, festas, promessas e brilho. Enquanto sobem
juntos, em voos confortáveis, esquecem quem os colocou lá em cima: o
povo.
O homem alado não é herói, é predador. Suas asas servem para fugir
quando chega a conta, suas garras para recolher o que não lhe
pertence, e cada vez que voa, o Brasil sangra um pouco mais. Voam
alto, é verdade mas o peso da consciência um dia os fará cair, e não
haverá asa que os segure.

Otoniel Saraiva é Economista, Advogado e Ex Deputado Estadual pela
Bahia

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