
Miguel Lucena
Na sexta-feira, um bloqueio judicial surgiu nas minhas contas por causa de um simples recibo de gasolina ausente na prestação de contas de campanha — ironia das ironias: meu advogado havia falecido de câncer no meio do processo, deixando um vazio que não era só jurídico, mas humano.
Ao mesmo tempo, uma empresa da qual sou sócio seguia sem receber recursos de um órgão público, travados por uma crise financeira estatal dessas que ninguém assume, mas todos sofrem.
Resolvi ir à missa. Precisava mais de amparo do que de respostas. Estacionei numa rua próxima à igreja e, ao descer do carro, pisei — com precisão quase cirúrgica — numa traiçoeira porção de cocô de cachorro. Pensei: é teste. E dos mais terrenos.
Voltei para casa, troquei de sapatos e retornei. Dessa vez, olhando o chão e o céu.
No dia seguinte, veio o convite: redator em uma agência de publicidade.
A fé não evita tropeços — mas ensina a insistir, mesmo com o sapato sujo.
E, às vezes, como quem remove montanhas, abre caminhos onde antes só havia lama.

