China reage a Trump e ameaça medidas contra sanções ao Irã

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AFP covers the war in the Mid Created - (crédito: AFP)

Governo de Pequim rebate como “ilegais e unilaterais” as sanções anunciadas pelos EUA contra países que fazem negócios com o Irã. Pacote para sufocar o regime islâmico estará à mesa na visita de Xi Jinping a Washington, no fim de setembro

A menos de um mês de receber na Casa Branca o colega Xi Jinping, Donald Trump colocou na agenda do encontro mais um capítulo nas conturbadas relações comerciais — e diplomáticas — entre Estados Unidos e China, as duas maiores potências econômicas. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou na segunda-feira (25/8) um novo e rigoroso pacote de sanções destinado a isolar o Irã, batizado pelo presidente como “Dia D da guerra econômica”. A ideia é ameaçar também empresas e outros agentes de terceiros países que mantenham relações comerciais e financeiras com Teerã com punições, inclusive a exclusão do sistema internacional baseado no dólar.

O governo comunista de Pequim reagiu no dia seguinte, e sem rodeios. O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Lin Jian, condenou a adoção de “sanções ilegais unilaterais” e afirmou a determinação do país para tomar “todas as medidas necessárias” para defender seus interesses. “Nossa cooperação com o Irã sempre foi conduzida dentro dos limites do direito internacional e não deve ser sujeita a interferências ou interrupções”, arrematou.

Em particular, a capacidade da China para responder efetivamente a um bloqueio no sistema financeiro internacional é objeto de debate entre especialistas e estudiosos. “Pequim construiu mecanismos importantes para reduzir sua vulnerabilidade ao dólar. O próprio Tesouro dos EUA reconhece que grande parte do petróleo iraniano vendido à China é liquidada em iuanes”, disse ao Correio o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. “Mas isso não significa que a China disponha hoje de um substituto integral para o sistema dólar. Pode resistir, mas não é imune.”

Trunfo

“A capacidade de resposta chinesa está, sobretudo, na sua capacidade industrial e na dependência da economia dos EUA em relação ao país, aí incluídos os minerais críticos e as terras raras”, analisa Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB. Ele lembra, ainda, o trunfo representado pela ampliação da presença diplomática de Pequim na América Latina, que o governo Trump volta a tratar como “área de influência natural” dos EUA. Assim como o impasse militar com o Irã no Oriente Médio, “a presença da China na região é uma preocupação incluída por Trump na agenda” do encontro, marcado para 24 de setembro.

O especialista da ESPM vê o cerco econômico ao Irã como “mais uma variável dentro de uma negociação muito maior, que envolve tarifas, tecnologia, inteligência artificial, cadeias produtivas e competição estratégica”. E aposta que, na visita do presidente chinês, o anfitrião usará as sanções secundárias como instrumento de pressão, antes da reunião de cúpula em Washington. “O fato de o novo pacote ter poupado, até agora, grandes instituições financeiras chinesas pode ser lido exatamente dessa maneira: a ameaça talvez seja, no momento, mais valiosa do que sua execução”, pondera.

Rudzit avalia que Pequim procura, nesse novo round da disputa comercial com Washington, “algo além de apenas fazer sua voz ser ouvida”, em assuntos de alcance global. “Está afirmando que não reconhece aos EUA o direito de determinar unilateralmente com quem terceiros países podem manter relações econômicas”, explica. “Trump usa uma capacidade que decorre da centralidade do dólar para dar alcance extraterritorial às suas decisões. A China contesta justamente essa capacidade.”

Nesse terreno, o professor do Irel/UnB identifica como tática de Xi “explorar as contradições dos EUA e tirar proveito das trapalhadas políticas” de sua contraparte. “A China evita disputar e se manifestar de forma contundente em certos temas internacionais”, observa Menezes. “Enquanto vai estreitando os vínculos com o Sul Global, isso vai fortalecendo sua posição, mas não implica que tenha um roteiro bem traçado para criar uma ordem global alternativa aos EUA.”

 

 

 

 

 

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