Número de crianças e adolescentes nessa situação recuou 9,2% em 2025, segundo o IBGE. Apesar da melhora, 525 mil ainda exerciam atividades consideradas entre as piores formas de trabalho infantil, com riscos à saúde e à segurança.

O Brasil tinha 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2025.
Desse total, 525 mil estavam ocupados nas piores formas de exploração, que incluem atividades perigosas e insalubres proibidas para menores de 18 anos e previstas na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP).
O número representa 36,2% dos jovens que exerciam atividades econômicas no país, segundo dados da PNAD Contínua, do IBGE.
O Sudeste concentrava o maior número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, com 481 mil casos em 2025. (Veja por região)
🔍 O IBGE considera em situação de trabalho infantil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que realizam atividades econômicas ou produzem bens para o próprio consumo, conforme os critérios da pesquisa. A legislação brasileira proíbe qualquer trabalho antes dos 14 anos e permite a aprendizagem a partir dessa idade. Aos 16 e 17 anos, o trabalho é permitido, mas há restrições.
Piores formas de trabalho infantil
Cerca de 525 mil crianças e adolescentes estavam ocupados nas chamadas piores formas de trabalho infantil, o equivalente a 36,2% daqueles que realizavam atividades econômicas. É o menor número da série histórica.
- A classificação segue a Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP), prevista no Decreto nº 6.481, de 2008. Ela inclui atividades que podem colocar em risco a saúde, a segurança e a moralidade de crianças e adolescentes, como determinados trabalhos com máquinas perigosas, produtos químicos e em condições insalubres.
Na comparação com 2024, quando a estimativa era de 560 mil pessoas, houve queda de 6,3%. Em relação a 2016, quando 919 mil crianças e adolescentes estavam nessas ocupações, a redução acumulada chega a 42,9%.
O perfil desse grupo também revela desigualdades: 72,6% eram meninos e 68,3% eram pretos ou pardos. Além disso, 333 mil tinham entre 16 e 17 anos, o equivalente a mais de 60% dos que estavam nas piores formas de trabalho infantil.
Adolescentes de 16 e 17 anos concentram a maioria dos casos
O trabalho infantil é mais frequente entre os mais velhos. Em 2025, os adolescentes de 16 e 17 anos correspondiam a 58,1% do total de crianças e adolescentes nessa situação: eram 871 mil pessoas, ou 14,5% da população dessa faixa etária.
Entre os jovens de 14 e 15 anos, havia 348 mil pessoas em situação de trabalho infantil, o equivalente a 5,9% da população dessa faixa etária. Já entre crianças de 5 a 13 anos, eram 280 mil casos, ou 1,1% do total nessa idade.
Nesse último grupo, 190 mil crianças, ou 67,7% do total, estavam envolvidas exclusivamente em atividades voltadas ao próprio consumo, como a produção de alimentos para a família.
O levantamento também mostra desigualdades por sexo e raça ou cor. Os meninos representavam 65,4% das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, enquanto as meninas correspondiam a 34,6%. Crianças e adolescentes pretos ou pardos somavam 67% do total.
⚠️ Nem todo adolescente que trabalha está necessariamente em situação irregular. A classificação como trabalho infantil depende da idade, da atividade exercida e das condições de trabalho, conforme os critérios da legislação e da pesquisa.
A legislação brasileira estabelece regras diferentes para cada idade:
- Até os 13 anos, qualquer trabalho é proibido.
- Aos 14 e 15 anos, é permitido apenas o trabalho na condição de aprendiz.
- A partir dos 16 anos, o trabalho é autorizado, mas há restrições: menores de 18 anos não podem exercer atividades noturnas, perigosas ou insalubres, nem ocupações incluídas na Lista TIP.
Informalidade e distância da escola
Entre os adolescentes de 16 e 17 anos que trabalhavam, 67% estavam na informalidade, o equivalente a aproximadamente 705 mil pessoas. O percentual foi o menor da série histórica. Em 2022, a taxa era de 76,3%.
A relação entre trabalho e educação é outro ponto de atenção. Entre as crianças e os adolescentes em situação de trabalho infantil, a taxa de escolarização era de 86,9%, abaixo dos 97,5% registrados entre todas as crianças e adolescentes de 5 a 17 anos.
A diferença é ainda maior entre os jovens de 16 e 17 anos. Nessa faixa, 79,6% daqueles em situação de trabalho infantil frequentavam a escola, ante 89,6% do total de adolescentes da mesma idade.
A diferença de 10 pontos percentuais não significa, por si só, que o trabalho tenha provocado o abandono escolar em todos os casos, mas mostra que os adolescentes em situação de trabalho infantil têm menor frequência escolar.
Os dados de rendimento também mostram diferenças entre os grupos.Crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil recebiam, em média, R$ 936 por mês. Entre os que ainda estudavam, o rendimento médio era de R$ 844, enquanto aqueles que haviam deixado a escola recebiam R$ 1.326.
A diferença é compatível com a possibilidade de jornadas mais longas entre os jovens que não frequentam a escola.
Sudeste tem mais casos; Norte, maior proporção
A distribuição regional mostra que o Sudeste concentrava o maior número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, com 481 mil pessoas.
O Nordeste vinha em seguida, com 408 mil, seguido pelo Norte, com 249 mil, pelo Sul, com 233 mil, e pelo Centro-Oeste, com 128 mil.
🙍♂️ Quando o cálculo considera a proporção de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil em relação à população de cada região, porém, o cenário muda. O Norte apresentava a maior taxa do país, de 6,3%, enquanto o Sudeste registrava a menor, de 3,3%.
Isso significa que, embora o Sudeste concentre mais casos em números absolutos, o trabalho infantil representa uma parcela maior da população jovem no Norte.
O Nordeste, por sua vez, teve a maior redução acumulada entre 2016 e 2025, de 45,6%. Na comparação entre 2022 e 2025, a queda na região foi de 29,2%.
Bolsa Família concentra mais de 95% da redução em 2025
A redução do trabalho infantil ocorreu principalmente entre crianças e adolescentes que vivem em famílias beneficiárias do Bolsa Família. De 2024 para 2025, o número de jovens em situação de trabalho infantil nessas famílias caiu 20,1%, de acordo com os dados da PNAD Contínua.
Isso representa 144 mil crianças e adolescentes a menos nesse grupo, o equivalente a mais de 95% da redução de 151 mil casos registrada no país no período.
Em 2025, 573 mil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que viviam em famílias atendidas pelo programa estavam em situação de trabalho infantil. O número corresponde a 4,4% das crianças e adolescentes que vivem nessas famílias.
Ao todo, 13,1 milhões de crianças e adolescentes nessa faixa etária moravam em famílias beneficiárias do Bolsa Família, o equivalente a 34,7% da população de 5 a 17 anos no país.
A diferença de renda entre os domicílios também chama a atenção. A renda média mensal por pessoa era de R$ 660 nas famílias beneficiárias, contra R$ 1.990 naquelas que não recebiam o benefício.
Os números mostram que a redução do trabalho infantil esteve fortemente concentrada entre as famílias atendidas pelo programa.
A comparação, porém, não permite atribuir toda a queda exclusivamente ao Bolsa Família: outros fatores econômicos e sociais também podem influenciar a entrada de crianças e adolescentes no mercado de trabalho antes da idade permitida.
Fiscalização bate recorde, mas problema é grande
Enquanto o IBGE estima a dimensão do trabalho infantil no país por meio de uma pesquisa domiciliar, a fiscalização federal atua para identificar casos de trabalho infantil e afastar crianças e adolescentes de atividades ilegais.
Em 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego realizou 10.234 ações fiscais que resultaram no afastamento de 4.318 crianças e adolescentes do trabalho infantil. Foi o maior número de afastamentos dos últimos 10 anos.
Minas Gerais, com 830 afastamentos, e São Paulo, com 629, registraram os maiores números entre os estados. Esses números são bem menores que o total de 1,499 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil estimado pelo IBGE para o mesmo ano.
A comparação ajuda a mostrar a diferença entre o total estimado pela pesquisa e os casos identificados pela fiscalização, mas não representa uma taxa de cobertura oficial: os dois indicadores são produzidos por métodos diferentes, e as fiscalizações podem se concentrar em situações de maior gravidade.
As dificuldades para enfrentar o problema incluem a informalidade, a existência de locais de trabalho espalhados pelo país e a dificuldade de identificar situações que ocorrem em ambientes privados, como o trabalho doméstico. A atuação dos auditores-fiscais também depende da estrutura disponível para realizar fiscalizações em todo o país.
Além das ações de fiscalização, o número de denúncias também aumentou em 2025. O Disque 100 recebeu cerca de 5,1 mil denúncias relacionadas ao trabalho infantil, alta de 19,4% em relação ao ano anterior. Já o Ministério Público do Trabalho recebeu aproximadamente 7,9 mil denúncias, crescimento de 36,6%.
Fonte: g1

