Miguel Lucena
Tião Lucena marcou encontro com o passado numa mesa de plástico, dessas que sustentam mais histórias do que pratos. Escolheu a Barraca do Cuscuz, na Feira do Zé Américo, certo de que ali o tempo não falha: basta chegar que os amigos aparecem, puxados pelo cheiro do milho quente e da conversa fiada.
Mas o tempo, às vezes, também dá bolo.
Edmilson perdeu a hora — talvez sonhando com cuscuz também. Gaudêncio chegou, mas chegou depois da foto, que é como chegar atrasado na própria memória. Tadeu desertou para Recife, numa dessas viagens que ninguém explica direito, e Burrego preferiu inaugurar a casa nova em Bananeiras, como quem troca a feira pela varanda.
E Tião? Ficou.
Sentado, firme, garfo na mão, como um guardião solitário de uma tradição que se recusa a morrer. Porque o cuscuz, meu amigo, não depende de quorum. Ele é resistente: basta um cabra disposto e um prato servido que a cultura se sustenta.
Eu, de longe, aqui em Brasília, confesso minha ausência com culpa e fome. Tento compensar na Embaixada do Piauí ou na Feira do Guará, mas sei que não é a mesma coisa. Falta o sotaque arrastado, a risada frouxa e o atraso coletivo que, no fundo, é o tempero maior.
No fim das contas, Tião não ficou sozinho. Ficou com o cuscuz — e isso, convenhamos, já é uma excelente companhia.


