Virada numérica em MG acende alerta para Lula; leia análise de Felipe Nunes

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Pesquisas estaduais confirmam vantagem numérica de Flávio Bolsonaro no Sudeste e mostram por que preservar a votação de 2022 pode não bastar para Lula.

 

Minas Gerais tem uma particularidade que obriga qualquer análise presidencial a olhar com atenção para o estado: de 1989 a 2022, o candidato que venceu a eleição no Brasil também foi o mais votado pelos mineiros na rodada decisiva. Foi assim com Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Bolsonaro.

É por isso que a virada numérica de Flávio Bolsonaro sobre Lula em Minas, registrada pela Quaest nesta terça-feira (8), merece atenção especial.

Flávio passou de 35% em julho para 40% agora. Lula oscilou de 38% para 37%. A vantagem de três pontos do presidente se transformou em uma desvantagem de três. Com margem de erro de três pontos para mais ou para menos, os dois continuam tecnicamente empatados.

A inversão é numérica. Mas o sinal político é relevante: o estado que acompanhou todos os vencedores desde a redemocratização chega à reta final da campanha sem uma vantagem definida para o presidente e com o adversário numericamente à frente.

 

Minas não antecipa o resultado por alguma lei da política. Seu histórico importa porque reúne um eleitorado numeroso e realidades sociais e regionais muito diferentes. Por isso, uma mudança na disputa mineira merece ser lida como um alerta sobre o equilíbrio nacional, sem ser transformada em previsão. Aliás, vale sempre lembrar, pesquisa é uma fotografia do momento, nunca deve ser interpretada como uma tentative de prever o resultado.

As pesquisas de São Paulo e Rio de Janeiro ajudam a colocar esse movimento em perspectiva. Nos três estados, Flávio aparece numericamente à frente de Lula no segundo turno. É a mesma direção observada no recorte do Sudeste da pesquisa nacional divulgada ontem, que mostrou 43% para Flávio e 34% para Lula. O empate de 41% a 41% no Brasil, portanto, convive com uma região Sudeste mais favorável ao candidato do PL.

Recortes do eleitorado

Recorte Lula Flávio Diferença pró-Flávio
Sudeste (pesquisa nacional) 34% 43% 9 pontos
São Paulo 33% 41% 8 pontos
Minas Gerais 37% 40% 3 pontos
Rio de Janeiro 37% 43% 6 pontos

A comparação mostra que o Sudeste tem diferenças internas importantes. São Paulo, com 33%, fica um ponto abaixo da estimativa regional de Lula. Minas Gerais e Rio, ambos com 37%, ficam três pontos acima. No sentido descritivo, os dois últimos puxam o desempenho do presidente para cima; São Paulo, para baixo. O peso do eleitorado paulista torna essa dificuldade especialmente relevante para a conta nacional.

Para Flávio, o Rio é o melhor resultado entre os três estados e iguala os 43% do Sudeste. São Paulo, com 41%, fica dois pontos abaixo; Minas, com 40%, três abaixo. Há aqui uma distinção importante: São Paulo oferece a maior vantagem sobre Lula, de oito pontos, mas é no Rio que Flávio alcança seu maior percentual. O tamanho da vantagem depende tanto da força de um candidato quanto da dificuldade do outro.

Essas diferenças entre estimativas não demonstram, por si só, diferenças estatísticas entre os eleitorados. A margem do recorte Sudeste é de três pontos. Além disso, a nacional e as estaduais são levantamentos distintos, e o recorte regional inclui o Espírito Santo. A comparação revela um padrão convergente, sem permitir decompor a estimativa nacional como se ela fosse a média desses três resultados.

Também não há a mesma situação estatística nos três estados. Em São Paulo, a diferença de oito pontos supera a margem de dois pontos para cada candidato. No Rio, os seis pontos colocam a disputa no limite do empate técnico, considerada a margem de três. Em Minas, o empate está dentro da margem. A direção numérica se repete; a segurança da vantagem, não.

 

É esse deslocamento relativo que torna Minas o principal recado da rodada. Lula pode preservar um patamar próximo ao que tinha e, ainda assim, terminar numericamente atrás. Em um estado decidido por apenas 0,3 ponto do eleitorado total em 2022, pequenas diferenças entre os dois lados ganham grande importância. Os dados agregados não permitem dizer que antigos eleitores de Lula migraram diretamente para Flávio. Permitem dizer que a relação de forças ficou menos favorável ao presidente.

 

São Paulo confirma uma dificuldade conhecida. O Rio oferece a Lula um resultado superior ao de 2022, embora insuficiente para colocá-lo à frente. Minas traz a novidade: a vantagem numérica mudou de lado justamente onde o presidente venceu por pouco e onde todos os vencedores nacionais também venceram desde 1989.

Para Lula, o alerta é que conservar sua base pode não bastar para conservar sua vantagem. Para Flávio, a oportunidade está aberta, mas a liderança mineira ainda precisa se afirmar além da margem de erro. Minas segue sem um favorito definido. E, pelo seu histórico, é justamente por isso que o Brasil precisa prestar atenção nela.

* Por Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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