
Miguel Lucena
A Guerra de Princesa não terminou em 1930. Ela continua viva na memória dos descendentes dos combatentes, nas conversas de calçada, nas narrativas familiares e no imaginário político do Sertão paraibano. Por isso, todo livro sério sobre aquele episódio desperta atenção especial de quem nasceu em Princesa e cresceu ouvindo histórias sobre José Pereira Lima, João Pessoa, jagunços, trincheiras e aviões sobrevoando a Serra do Gavião.
Em 1930: A Guerra de Zé Pereira de Princesa, Fabiana de Fátima Medeiros Agra enfrenta o desafio de revisitar um dos acontecimentos mais marcantes da história política da Paraíba. A autora apresenta uma narrativa consistente, amparada em pesquisa documental e bibliográfica, procurando compreender o conflito para além das versões apaixonadas que, durante décadas, dividiram os paraibanos entre heróis e vilões.
A Guerra de Princesa foi muito mais do que uma disputa pessoal entre João Pessoa e José Pereira. Representou o choque entre projetos de poder, interesses econômicos, coronelismo, autonomia municipal e a crescente centralização política do Estado. Nesse contexto, a autora demonstra sensibilidade ao situar o conflito dentro das transformações nacionais que culminariam na Revolução de 1930.
Como filho de Princesa, aproximei-me da Guerra de 1930 muito antes de conhecer os livros. Cheguei a ela pelas conversas de meu pai, Miguel Vicente de Lucena, o inesquecível Migué Fotógrafo, e de minha mãe, Emília Florentino de Lucena, cujas memórias familiares preservavam fragmentos daquele conflito.
Minha mãe tinha apenas cinco anos de idade quando a guerra chegou às cercanias de sua casa. Sua irmã, Jovelina Rodrigues Florentino, tinha sete. As duas crianças foram escondidas em um buraco escavado no chão enquanto os combatentes se enfrentavam nas proximidades. O estampido dos tiros, o medo e a tensão daqueles dias ficaram gravados para sempre na memória da família.
Terminada uma das refregas, saíram em companhia de sua mãe, Olinta Florentino — minha avó — em busca de água. No caminho encontraram o lendário capitão Clementino Quelé, personagem que permanece vivo na memória popular de Princesa.
Ao vê-las caminhando para uma fonte, Clementino advertiu que a água havia sido envenenada durante o conflito. Percebendo a sede das meninas, retirou a tampa do próprio cantil e lhes ofereceu água. O gesto simples de solidariedade em meio à violência da guerra atravessou quase um século e chegou até minha geração como uma das mais belas histórias que ouvi sobre aquele período. Em meio às armas, à pólvora e às disputas políticas, sobrevivia a humanidade.
Talvez por isso a leitura da obra de Fabiana Agra desperte em mim não apenas interesse histórico, mas também emoção. Não encontro apenas documentos, datas e personagens. Encontro ecos das histórias que ouvi desde menino, transmitidas por minha mãe, por tia Jovelina e por minha avó Olinta, mulheres sertanejas que viveram os dias dramáticos da Guerra de Princesa e ajudaram a preservar a memória de um dos capítulos mais extraordinários da história paraibana.
Existe uma tendência local de transformar José Pereira em personagem mítico, quase lendário. Da mesma forma, há quem o retrate apenas como símbolo do coronelismo. O mérito da obra está justamente em evitar simplificações. Fabiana Agra busca compreender o homem e o contexto histórico, permitindo ao leitor construir suas próprias conclusões.
A leitura também ajuda a compreender por que a chamada República de Princesa permanece como um dos episódios mais fascinantes da história brasileira. Durante meses, uma cidade sertaneja resistiu ao governo estadual, organizou sua própria estrutura administrativa e transformou-se em símbolo de rebeldia política.
Para quem nasceu em Princesa, o livro possui ainda um valor afetivo e identitário. As paisagens da Serra do Gavião, os caminhos sertanejos, as antigas trincheiras e os personagens daquele conflito continuam vivos na memória da cidade. Não como lembranças de uma guerra a ser celebrada, mas como parte de uma história que precisa ser compreendida em toda a sua complexidade.
Mais do que contar uma guerra, Fabiana de Fátima Medeiros Agra contribui para preservar a memória de um povo que, entre a coragem, os interesses políticos e as contradições de seu tempo, escreveu uma das páginas mais impressionantes da história paraibana.
Trata-se de uma leitura recomendável para historiadores, estudantes e todos aqueles que desejam compreender por que, quase um século depois, a Guerra de Princesa ainda desperta paixões, debates e reflexões no coração do Sertão. Ao revisitar esse episódio, a autora nos lembra que a história não é apenas aquilo que aconteceu, mas também aquilo que continua repercutindo na identidade de um povo.
Miguel Lucena
Delegado aposentado da PCDF, advogado, jornalista e filho de Princesa


