
Miguel Lucena
Quando vejo esses jogadores modernos ciscando na entrada da área adversária, passando o pé por cima da bola, fingindo que vão e não indo, rodando feito peru em véspera de Natal até perder a pelota, lembro logo de Zé de Ana, técnico do Cancão de Princesa, na beira do campo, voz de trovão:
— Joga no fuá!
O fuá era o coração da confusão. Era onde ataque e defesa se embolavam dentro da área, camisa puxada, cotovelo escondido, zagueiro rezando, centroavante farejando, goleiro gritando e a bola pedindo destino.
Zé de Ana não queria firula. Queria perigo. Cruzamento. Rebote. Cabeçada. Canela. Sustança. Futebol de verdade também se resolve no tumulto, onde nasce o gol feio, chorado, bendito — desses que não pedem licença ao VAR nem ao manual dos almofadinhas.
Hoje falta isso: menos ciscar, mais fuá.


