sexta-feira, 15/05/26
HomeMiguel LucenaQuando o poder pede licença para ultrapassar limites

Quando o poder pede licença para ultrapassar limites

 

Ilustração

 

Miguel Lucena

O analista Francisco Carneiro Júnior publicou recentemente um longo artigo intitulado “Poder tem uma moral própria”, inspirado no ensaio Political Action: The Problem of Dirty Hands, do filósofo político norte-americano Michael Walzer. O texto faz uma defesa sofisticada — e perigosamente sedutora — da ideia de que governantes precisam “sujar as mãos” para salvar nações, reformar Estados e impor ordem histórica.
Francisco Carneiro Júnior recorre a exemplos como Winston Churchill, Margaret Thatcher, Lee Kuan Yew e Michael Walzer para sustentar que grandes líderes não governam “de luvas brancas”. Mistura filosofia política, tragédia moral e realismo de poder para defender que certas decisões duras seriam inevitáveis.
O problema começa quando uma reflexão sobre dilemas excepcionais vira quase um manual psicológico para justificar a dureza permanente do poder. Walzer nunca escreveu uma autorização para governantes atropelarem limites institucionais. Ao contrário: seu dilema das “mãos sujas” pressupõe culpa, excepcionalidade e responsabilidade moral. O governante que transgride continua moralmente marcado pela transgressão. Não recebe absolvição filosófica.
Mas o artigo avança para algo além. Em vários momentos, sugere que políticos “limpinhos” seriam covardes, enquanto os “estadistas verdadeiros” precisariam aprender a agir nas sombras, negociar sem escrúpulos aparentes e ultrapassar desconfortos morais em nome de um suposto bem nacional.
É nesse ponto que o texto deixa de ser apenas reflexão filosófica e começa a tocar a gênese de uma visão autoritária de poder.
Toda experiência autoritária nasce assim: primeiro aparece a narrativa de crise permanente; depois surge a tese de que as instituições comuns não funcionam; em seguida, apresenta-se um grupo de homens “mais lúcidos”, “mais preparados” ou “mais corajosos” para salvar a nação; por fim, relativizam-se garantias, controles e freios democráticos em nome de um bem maior.
A pergunta inevitável é: quem define esse “bem maior”?
Quem autoriza determinados líderes a falarem em nome do “povo verdadeiro”? Quem estabelece quando a exceção termina? Quem vigia os vigilantes?
O artigo tenta diferenciar “mãos sujas pelo povo” de “mãos sujas pela corrupção”. Mas a história mostra que quase todo projeto autoritário começou afirmando agir pelo povo, pela ordem, pela moralidade ou pela sobrevivência nacional. Ditaduras raramente chegam dizendo que são ditaduras. Elas chegam prometendo eficiência.
Ao citar líderes que controlaram imprensa, prenderam opositores ou centralizaram poder como exemplos de “coragem histórica”, o texto normaliza uma ideia inquietante: a de que a democracia seria lenta demais para resolver problemas complexos.
Eis o risco.
A democracia não exige santos. Mas exige limites. Exige divisão de poderes, imprensa livre, oposição viva e respeito às regras mesmo quando elas atrapalham nossos projetos políticos. Quando alguém começa a falar em “moral própria do poder”, convém acender todas as luzes de alerta. Porque, muitas vezes, é exatamente nesse instante que o arbítrio começa a procurar justificativa intelectual para deixar de parecer arbítrio.

VEJA TAMBÉM

O patriota mamador

Mãe é poesia

Comentar

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Publicidade -
- Publicidade -spot_img

RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Este campo é necessário

VEJA TAMBÉM