IBGE prevê taxa de 1,05% para mês; acumulado da inflação nos últimos 12 meses soma 8,27%. Segundo especialista, aumentos pesam mais no bolso de pessoas de baixa renda e atrapalham economia local.
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A prévia da inflação para agosto em Brasília é a maior em 20 anos. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) prevê índice de 1,05%, maior que a média nacional, de 0,89%. A última vez que o valor ficou tão alto para o mês foi em 2001, quando alcançou 1,29%.
O aumento é o mais recente em uma série de altas consecutivas na inflação. Desde janeiro, o índice acumula alta de 5,17% na capital e, nos últimos 12 meses, de 8,27%.
Segundo a economista Mariel Angeli Lopes, do Dieese, na prática, os índices prejudicam principalmente as pessoas com renda mais baixa e atrapalham a economia local, dificultando a manutenção, principalmente, de pequenos negócios.
Nesta reportagem, o G1 esclarece com as altas da inflação impactam no bolso da população. Os temas abordados são:
- Quais produtos estão ficando mais caros? E quais mais baratos?
- Quais particularidades de Brasília influenciam o índice?
- Quais famílias são mais impactadas pela inflação?
- Quais os impactos da inflação na economia local?
- Há perspectivas de redução nos preços dos principais produtos?
Quais produtos estão ficando mais caros? E mais baratos?
O levantamento do IBGE pesquisa preços de nove grupos de produtos e avalia se ficaram mais caros, ou mais baratos, em relação a períodos anteriores. Segundo o IPCA-15, em agosto, oito desses grupos tiveram aumento. Os transportesrepresentaram 0,42 ponto percentual, ou seja, quase metade da taxa.
Os transportes por aplicativo ficaram 6,92% mais caros em agosto e os combustíveis, 3,35%. Ao longo do ano, no entanto, as altas são bem maiores. Em Brasília, a gasolina já soma aumento de 36,9% desde janeiro e de 52,4% nos últimos 12 meses.
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Em seguida, aparece o grupo de habitação, puxado principalmente pelo botijão de gás, que teve alta de 5,2% em agosto e pela energia elétrica residencial, que ficou 5,09% mais cara. Essa última soma alta de 13,82% no ano, impulsionada pela crise hídrica e pela adoção da bandeira vermelha pelo governo federal para desencorajar o consumo.
O terceiro grupo com maior alta em agosto é o de alimentação e bebidas, que tem causado forte impacto na inflação desde o ano passado. Neste mês, o grupo teve a maior alta desde abril e foi impulsionado pelos tubérculos, raízes e legumes, com alta de 5,4%. Já as carnes acumulam 31,24% de aumento nos últimos 12 meses.
O único grupo que ficou mais barato em agosto foi o de saúde e cuidados pessoais, principalmente influenciado pelos produtos farmacêuticos e óticos (-0,92%) e o plano de saúde (-0,18%).
Quais particularidades de Brasília influenciam o índice?
Segundo a economista Mariel Angeli Lopes, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Brasília tem uma composição de renda mais complexa que a maioria das capitais.
“Quando a gente olha as faixas de renda de pessoas que trabalham aqui, vemos que tem muita gente recebendo salário baixo e muita gente recebendo salário alto”, explica.
Segundo a especialista, em momentos em que a inflação é puxada por preços livres, ou seja, quando o aumento é definido pelos comerciantes por aumento da demanda, essa composição pode influenciar nos índices. No entanto, isso não é o que está acontecendo no momento.
Mariel explica que os reajustes que pesaram mais no bolso nos últimos meses foram o dos combustíveis e da energia elétrica. Ambos subiram por questões externas. No caso da gasolina e do diesel, os aumentos ocorreram por conta da alta do dólar.
“Aqui em Brasília, o preço da gasolina é muito importante porque grande parte da população usa veículos próprios para se locomover”, diz a economista.
Já no caso da energia elétrica, o aumento foi por conta da crise hídrica. Por isso, segundo a especialista, na situação atual, a conjuntura do DF apenas reflete a nacional.
Quais famílias são mais impactadas pela inflação?
Mariel afirma que as famílias de baixa renda são as mais impactadas pela alta nos preços, porque perdem mais poder de compra. Além disso, como os reajustes recentes são principalmente de produtos essenciais e de consumo diário, a parte da renda utilizada para esses gastos aumentou consideravelmente.
“Uma família que ganha um salário mínimo vai gastar quase toda a renda para comprar a cesta básica. Isso não acontece com uma família que ganha cinco salários mínimos, por exemplo. A gente está vendo isso direitinho durante a pandemia, como o preço dos alimentos aumentou muito ultimamente, dá pra ver o impacto muito maior para pessoas com renda mais baixa”, diz Mariel Angeli Lopes, do Dieese.
A especialista afirma ainda que o peso da inflação também varia de acordo com o perfil de consumo da família. “Ninguém consegue viver totalmente representado naquele índice de inflação, porque cada categoria tem um peso no orçamento de cada um”, diz.
“A alimentação tem variado sempre acima do índice de inflação geral. Em compensação, os preços de serviços, como salão de beleza e hotel, variaram negativamente. Isso puxa o índice para baixo, mas como tem muita coisa puxando o índice pra cima, ele sempre acaba aumentando de forma geral.”
Quais os impactos da inflação na economia local?
Segundo a economista, o impacto da alta da inflação na economia local é “muito alto”. “No DF, a gente tem uma taxa de desemprego muito elevada (18,6%), maior do que a média nacional (14,5%). A gente tem também aqui, por conta dos salários públicos, remunerações mais elevadas. Mas elas vêm há anos sem reajustes, então também perderam poder de compra”, explica.
Essa situação, de acordo com a especialista, provoca queda nas vendas de comércio e serviços e uma mudança no padrão de consumo. “Primeiro, as pessoas passam a olhar menos a marca dos produtos, e depois deixam de consumi-lo. A gente já começa a ver isso acontecendo aqui no DF.”
Mariel explica ainda que os preços mais altos não indicam aumento no lucro das empresas, mas o contrário. Com a alta do dólar, produtos importados, que compõem boa parte do consumo brasileiro, chegam mais caros ao país. Além disso, a maior parte da produção nacional acaba sendo exportada, porque a venda com a moeda estrangeira se torna mais lucrativa que o consumo interno.
“O aumento [de preços] que está acontecendo agora é o pior possível, porque não é causado por problema de demanda, mas por falta de oferta”, diz.
“Quando o empresário coloca o produto para vender, não pode aumentar muito o preço porque está vendendo para uma população empobrecida e desempregada. Mas os insumos estão mais caros, então ele acaba perdendo a margem de lucro e, em alguns casos, a situação se torna insustentável. Por isso, muitos empreendedores acabam preferindo fechar os negócios, porque eles se tornam inviáveis”, explica.
Há perspectivas de redução nos preços dos principais produtos?
Segundo Mariel, no caso dos alimentos, pelo menos, não há expectativa de redução. A economista afirma que, em comparação com o ano passado, os preços desses produtos vivem certa estabilidade no momento. No entanto, a tendência de alta é global.
“Ano passado foi excepcionalmente ruim. Começou antes da pandemia uma tendência de aumento dos preços de alimentos, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Com a pandemia, esse movimento ficou muito mais acelerado. E não há previsão de redução nos preços dos alimentos no futuro próximo.”

