O Sagrado e o Profano – modos fundamentais de existir no mundo

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Maria José Rocha Lima

A leitura de O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade, foi uma das escolhas mais acertadas do Clube do Livro do Pondé para este momento histórico em que vivemos.

Filósofo, historiador das religiões e escritor, Mircea Eliade nasceu na Romênia, em 1907, e faleceu em Chicago, em 1986. Sua obra permanece atual justamente porque nos convida a refletir sobre uma questão essencial: de que maneira o ser humano organiza sua existência e atribui sentido ao mundo?

Os membros do Clube do Livro do Pondé foram acompanhados, mais uma vez, pelo professor Guilherme Lora Ronco, mestre e doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo — USP, que nos ofereceu leituras e reflexões de admirável riqueza e profundidade.

A escolha desse livro parece ter sido feita a dedo. Em tempos marcados pela velocidade, pela fragmentação das relações, pelo consumismo e pela perda de referências, talvez necessitemos, mais do que nunca, revisitar as questões apresentadas por Eliade.

Logo no início da obra, o autor chama a atenção para a necessidade de compreendermos outras formas de religiosidade. Ele nos lembra que o comportamento e a mentalidade do homem religioso das sociedades antigas estão hoje muito distantes do modo de pensar do homem ocidental moderno. Já não conseguimos compreender com facilidade seus códigos, seus ritos, seus símbolos e seus balizamentos.

Para o professor Guilherme Lora Ronco, “O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade, continua sendo uma obra provocadora porque toca numa ferida do homem contemporâneo: a perda de referências capazes de dar sentido à existência. Para Eliade, o Sagrado funda o mundo. Ele estabelece um centro, organiza o espaço, o tempo e a própria experiência humana”.

Essa ideia conduz a uma pergunta inquietante: se o Sagrado funda o mundo, o que acontece quando o homem já não sabe onde está o seu centro?

Talvez parte da angústia contemporânea nasça justamente dessa perda de orientação.

Quando o homem perde o Sagrado, perde também o rumo?

Os comentários de Guilherme Lora Ronco, durante o Clube do Livro do Pondé, ajudam a transportar essa reflexão para os nossos dias. Segundo ele, “vivemos uma sociedade cada vez mais secularizada, na qual o Profano tende a ocupar todos os espaços. O resultado, para muitos, é uma existência sem eixo, marcada pelo imediatismo, pelo consumo e pela dificuldade de encontrar um sentido maior para a vida”.

O professor acrescenta uma advertência importante: “Não se trata de condenar a modernidade, mas de reconhecer um paradoxo: ao libertar-se de antigas referências, o homem pode também perder seus mapas interiores. Sem um centro transcendente, tudo pode parecer relativo, provisório e descartável”.

Eliade não propõe simplesmente um retorno ao passado. Seu interesse é compreender maneiras profundamente diferentes de estar no mundo. Mesmo numa sociedade amplamente secularizada, traços do antigo homo religiosus permanecem vivos.

Esse homo religiosus pode ser identificado entre aqueles que entendem que o mundo existe porque foi criado pelos deuses ou por uma força divina. Nessa concepção, o universo não é caótico: o cosmos é ordenado, vivo e carregado de significado.

Para o homem religioso arcaico ou tradicional, a natureza nunca é apenas matéria inerte nem simples cenário mecânico da existência humana. O mundo está vivo porque é atravessado pela presença e pela vontade do divino. Uma montanha, uma árvore, um rio, o vento ou o trovão podem transformar-se em sinais de uma realidade que ultrapassa aquilo que os olhos conseguem perceber.

É nesse contexto que Eliade trabalha com o conceito de hierofania, palavra que significa, literalmente, manifestação do sagrado.

Uma hierofania acontece quando algo pertencente ao mundo comum — uma pedra, uma árvore, uma nascente ou determinado lugar — revela uma dimensão transcendente e passa a possuir caráter sagrado.

Assim, o mistério do universo deixa de ser apenas um problema a ser decifrado pela lógica e pode transformar-se em experiência de revelação.

Sob a ótica do homo religiosus, a realidade material torna-se espelho de uma realidade espiritual e arquetípica. O mundo existe e possui sentido porque reflete uma ordem anterior e superior. Conhecer a natureza significa, também, tentar compreender os sinais do divino nela inscritos.

Nessa cosmovisão, não existe uma separação absoluta entre o natural e o sobrenatural. Habitar o cosmos significa manter uma relação permanente com o sagrado, percebendo nos acontecimentos, nos lugares, nos ciclos da natureza e nos ritos a possibilidade de comunicação com uma realidade transcendente.

É justamente essa diferença entre os modos de existir que constitui um dos grandes eixos da obra.

Como observa o professor Guilherme Lora Ronco: “Eliade esclarece que o seu objetivo não é apenas estudar religiões ou comparar crenças, mas compreender dois modos fundamentais de existir: o sagrado e o profano. Estes não designam apenas lugares, objetos ou rituais; eles expressam maneiras distintas de habitar o mundo”.

E talvez esteja aí uma das maiores contribuições de O Sagrado e o Profano para o nosso tempo.

Eliade nos obriga a perguntar não apenas no que acreditamos, mas como habitamos o mundo.

O homem moderno pode ter se afastado de inúmeros ritos e referências tradicionais, mas continua procurando centros, símbolos, pertencimentos e significados. Mesmo quando afirma viver inteiramente no território do profano, permanece em busca de algo que dê unidade à sua existência.

A grande questão talvez não seja saber se o sagrado desapareceu.

Talvez seja perguntar: onde o colocamos?

E, sobretudo, se uma sociedade perde todos os seus centros de sentido, seus valores duradouros e suas referências transcendentes, que caminhos restarão ao homem para orientar a própria existência?

Perfil da autora

Maria José Rocha Lima é mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia, doutora em Psicanálise, psicopedagoga e especialista em História da África pela Universidade de Brasília. Professora, pesquisadora, ex-presidente da APLB e ex-deputada estadual pela Bahia, dedicou sua trajetória à valorização do magistério, ao financiamento da educação pública, aos direitos das mulheres e à proteção da infância.

Atuou na Câmara dos Deputados, no Ministério da Educação, em projetos da UNESCO e em programas educacionais no Brasil, Angola e Colômbia. Participou da elaboração de propostas relacionadas ao Fundeb, aos Planos Nacionais de Educação e ao Marco Legal da Primeira Infância.

Presidiu e desenvolveu projetos na Casa da Educação Anísio Teixeira, entre eles o Curta Maria!, voltado à prevenção da violência contra meninas e mulheres. Entre as distinções recebidas estão o Diploma Bertha Lutz, do Senado Federal, e o Prêmio Darcy Ribeiro, da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.

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