Marcas deixadas por meu pai

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Miguel Lucena

Meu pai me deixou o nome e as lições de uma luta renhida para sustentar nove filhos, em parceria com minha mãe, Emília, encarregada de cuidar das crianças e ainda preparar o material Kodak ou Kodabromide que ele usava na máquina lambe-lambe com a qual ganhava a vida retratando o povo de Princesa e da região.

Também trabalhava na roça, sempre em terras arrendadas para plantar e colher. Acordava cedo, fazia o café no fogão a lenha ou a carvão e só depois chamava minha mãe para apreciá-lo, num caneco de alumínio, acompanhado de cuscuz com ovo. Quando a situação melhorava, aparecia até queijo de manteiga fabricado por Luiz Antas, no Sítio Espinheiro. E nós ainda aproveitávamos a borra do queijo, uma parte escura e azeda que, misturada com açúcar e farinha, virava uma iguaria.

Como se tudo isso fosse pouco, meu pai assumiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Princesa e tornou-se referência pelas realizações e pela mediação de conflitos agrários.

Nossa casa vivia cheia. Gente tomando café, almoçando, conversando e procurando ajuda. Eram os liderados de meu pai, homens de 50 anos que, nos anos 1970, já eram chamados de velhos.

Além das lutas sindicais, meu pai levou atendimento médico e odontológico aos trabalhadores. O ambulatório e o gabinete dentário funcionavam dentro da própria sede do Sindicato, construída por ele num terreno onde antes só havia lajedo. Conseguiu, ainda, atendimento psiquiátrico, instalado numa grande casa alugada ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Conselho.

Meu pai fazia tudo isso e ainda encontrava tempo para tomar seu uísque Drury’s — o “uísque de cabra macho” — com os amigos no Bar de Arlindo, aos sábados, dia de feira em Princesa. Nossa casa também era lugar de encontros e comemorações. No batizado de Neci, apareceu até o presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba, deputado Antônio Nominando Diniz.

Aniversários de filhos ele quase não comemorava. Eram nove, espalhados por diferentes meses, e o dinheiro precisava dar para muita coisa. Abriu exceção para os nove anos de Tião Lucena. A festa foi tão animada que Anísio Raça, de tanto tocar, terminou com as pontas dos dedos machucadas.

Mas meu pai fazia questão de celebrar as vitórias dos filhos. Quando fui aprovado pela primeira vez no vestibular, aos 17 anos, chamou a bateria da Escola de Samba Unidos de Princesa para festejar.

Até hoje Miguel Vicente de Lucena é lembrado e venerado em Princesa pela generosidade e pela disposição de ajudar todos os que o procuravam.

Meu pai gostava de carregar o mundo nas costas.

Talvez seja justamente essa a herança dele que mais pesa sobre as minhas.

Viva Miguel Vicente de Lucena, meu pai!

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