domingo, 28/06/26
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Francisco Guerra de Mello Brandão: quando o amor enfrenta a despedida

 

Maria José Rocha Lima*

A morte de Francisco Guerra de Mello Brandão deixa um vazio na vida de sua família, de seus amigos e de todos aqueles que com ele conviveram. Servidor dedicado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), desempenhou com discrição e competência funções administrativas e de gestão na área de tecnologia da informação, deixando como marca o compromisso com o serviço público.

Após a viuvez, reencontrou a felicidade ao lado da teóloga Lúcia Georgina Cordeiro Brandão, companheira de fé e de caminhada. Unidos também pela vida cristã, congregavam na Assembleia de Deus Novo Dia. Ali, Lúcia servia ao Senhor havia quase duas décadas, colaborando administrativamente, ao lado da Pastora Maria Clara Serpa, reitora da UNIECO, na formação de teólogos. Não o fazia por obrigação, mas por vocação, entendendo o serviço à Igreja como expressão concreta de sua fé.

Durante a enfermidade de Francisco, a dedicação de Lúcia tornou-se um testemunho de amor conjugal. Por mais de trinta dias permaneceu ao lado do esposo no hospital, acompanhando cada momento de sua luta pela vida. Alguns, ao observarem seu sofrimento diante da possibilidade da perda, interpretaram sua atitude como excesso de apego ou até idolatria.

Tal julgamento, entretanto, parece desconhecer a profundidade da condição humana. Quem ama sofre. Quem constrói uma vida a dois experimenta a dor da separação como uma das mais profundas experiências da existência. A fé não elimina as lágrimas; antes, dá-lhes sentido. O próprio Cristo chorou diante da morte de Lázaro, revelando que a tristeza não contradiz a esperança.

A psicologia, a filosofia e a tradição cristã reconhecem que o luto percorre caminhos complexos. A negação inicial da perda não é falta de fé, mas uma reação humana diante do impacto da ausência. Pouco a pouco, a razão, a graça divina e o tempo ajudam o coração a acolher aquilo que ele inicialmente se recusava a admitir.

Neste momento de despedida, ecoam com especial beleza as palavras tradicionalmente atribuídas a Santo Agostinho:

“A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês continuarei sendo. Chamem-me pelo nome que sempre me deram. Falem comigo como sempre fizeram. Não mudem o tom de voz. Não assumam um ar solene ou triste. Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo, sem qualquer sombra de tristeza. A vida significa tudo o que sempre significou. O fio não foi cortado. Por que eu estaria fora de seus pensamentos, apenas porque estou fora de suas vistas?”

Que Deus conceda consolo a Lúcia Georgina Cordeiro Brandão, aos familiares e aos amigos de Francisco Guerra de Mello Brandão. Que permaneçam não apenas as lágrimas da saudade, mas também a gratidão por uma vida compartilhada no amor, na fé e no serviço ao próximo. Afinal, como ensina a tradição cristã, a morte tem a última palavra apenas para quem perdeu a esperança; para os que creem, ela é passagem, e não fim.

*Maria José Rocha Lima é mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia, doutora em Psicanálise e teóloga. Foi deputada de 1991-1999.

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