Maria José Rocha Lima – Zezé*
A morte de Edgar Morin, aos 104 anos, representa mais do que a despedida de um grande filósofo. Significa a partida de um pensador que dedicou a vida a compreender a complexidade humana e a questionar as formas simplificadoras de enxergar o mundo.
Em tempos marcados pela intolerância, pelas polarizações e pela fragmentação do conhecimento, sua obra permanece extraordinariamente atual. Morin nos ensinou que a realidade não pode ser compreendida por partes isoladas. Tudo está conectado: indivíduo e sociedade, razão e emoção, natureza e cultura, ordem e desordem.
Seu conceito de “pensamento complexo” não significa complicar a vida, mas reconhecer que ela é tecida por múltiplas relações. Os grandes problemas contemporâneos — desigualdade, violência, crises ambientais, guerras, sofrimento emocional — não podem ser analisados por uma única disciplina ou explicados por respostas simplistas.
Para Morin, o conhecimento precisa dialogar. A educação deve superar a fragmentação dos saberes e ajudar as pessoas a compreenderem a condição humana em toda a sua profundidade. Somos, simultaneamente, seres biológicos, sociais, culturais, afetivos e históricos. Reduzir o ser humano a apenas uma dessas dimensões é empobrecer sua existência.
Outro ensinamento fundamental de sua obra é a necessidade de conviver com a incerteza. Em vez da ilusão de verdades absolutas, ele defendia a humildade intelectual, a capacidade de revisar convicções e a disposição para aprender continuamente.
Como educadora, vejo em Edgar Morin uma inspiração permanente. Sua reflexão nos lembra que ensinar não é apenas transmitir conteúdos, mas formar pessoas capazes de pensar criticamente, compreender o outro e assumir responsabilidades diante do destino comum da humanidade.
Morin partiu, mas permanece vivo em uma ideia essencial: a de que educar é ajudar o ser humano a religar conhecimentos, construir sentido e cultivar solidariedade. Em um mundo cada vez mais dividido, seu legado continua sendo um convite à compreensão, ao diálogo e à esperança.
Talvez sua maior lição tenha sido esta: aprender a navegar em um oceano de incertezas sem perder a humanidade que nos une.
Maria José Rocha Lima (Zezé) é professora, mestre em Educação e doutora em Psicanálise. Foi deputada estadual de 1991 a 1999.



