Miguel Lucena

A vida na Terra é uma viagem com passagem só de ida e data de retorno escondida. A gente chega chorando, sem roupa, sem dinheiro e sem saber o nome de ninguém. Depois passa boa parte do tempo querendo roupa melhor, mais dinheiro e ser conhecido por todo mundo.
Crescemos depressa demais. Quando crianças, queremos ser adultos; quando adultos, daríamos tudo por uma tarde da infância. Estudamos, trabalhamos, amamos, brigamos, fazemos planos para daqui a vinte anos como se tivéssemos recebido alguma garantia de permanência.
Juntamos coisas que um dia ficarão para os outros. Disputamos terrenos sabendo que, no fim, precisaremos de muito pouco chão. Guardamos mágoas como patrimônio, adiamos abraços, economizamos palavras de carinho e gastamos energia com quem talvez nem se lembre da discussão.
No meio disso tudo, há o que realmente vale: um filho chegando, uma mãe chamando pelo nome, um amor correspondido, os amigos em volta da mesa, uma gargalhada inesperada, o cheiro da chuva, o café quente e a sensação de ter sido útil a alguém.
Talvez a vida seja isso: nascer sem entender nada, passar anos tentando compreender e partir justamente quando começamos a descobrir que o segredo nunca esteve em possuir muito, mas em ter alguém para amar, alguma coisa para sonhar e uma boa história para deixar.

