terça-feira, 20/10/26
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A verdade que Flávio Bolsonaro tentou esconder sobre o Bolsa Família

Ilustração

 

Miguel Lucena — Delegado de Polícia aposentado, advogado e jornalista

A mentira pode correr o mundo, mas a verdade tem pernas resistentes e sempre acaba alcançando quem tenta escondê-la. É o que acontece agora com Flávio Bolsonaro, que passou anos atacando o Bolsa Família e seus beneficiários e, às vésperas da eleição presidencial, procura apresentar-se como defensor do programa.

O passado está documentado. Em 2011, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio foi o único parlamentar a votar contra o programa Renda Melhor, destinado às famílias em situação de extrema pobreza. A proposta foi aprovada por 54 votos a um. Ele chamou o benefício de “bolsa-farelo” e tentou limitar seu pagamento a dois anos.

Em 2013, voltou à carga, acusando o PT de perpetuar a pobreza com o programa e manter os beneficiários dependentes para conquistar votos. Também publicou mensagens insinuando que pessoas sustentadas por programas sociais não precisavam trabalhar.

Não se trata de interpretação maliciosa de adversários. São declarações registradas e recuperadas pela imprensa.

Agora, em plena disputa presidencial, algumas dessas publicações desapareceram das redes sociais de Flávio Bolsonaro. Mas apagar mensagens não apaga a história. Os registros foram preservados, e o eleitor tem o direito de conhecer o pensamento que orientou durante tantos anos a atuação do candidato.

Em setembro deste ano, Flávio ainda atacou o reajuste do Bolsa Família anunciado pelo governo Lula, classificando a medida como desespero eleitoral. Ao mesmo tempo, prometeu manter o benefício.

Nesta semana, a coordenadora econômica de sua campanha, Daniella Marques, voltou a colocar o programa no centro da discussão ao apresentar uma proposta de transição de dois anos para beneficiários que conseguirem emprego ou abrirem negócios. Diante da repercussão, a campanha esclareceu que não pretende extinguir o Bolsa Família, mas ampliar a proteção durante essa transição.

É preciso distinguir a promessa atual do histórico político. Flávio afirma que manterá o programa. Portanto, não é possível dizer que sua extinção esteja decidida. Entretanto, suas antigas posições justificam uma pergunta legítima: qual Flávio Bolsonaro governaria o Brasil — aquele que combatia os benefícios sociais ou aquele que agora promete preservá-los?

O Bolsa Família não é esmola. É uma política pública de combate à fome e à pobreza, criada para assegurar condições mínimas de sobrevivência a milhões de brasileiros. Quem recebe o benefício não deve ser tratado como preguiçoso, oportunista ou cidadão de segunda classe.

O risco político de uma vitória de Flávio Bolsonaro precisa ser debatido com seriedade. Não apenas o risco de extinção do programa, para o qual não existe decisão anunciada, mas também a possibilidade de mudanças nas regras, restrições de acesso ou enfraquecimento de sua proteção social.

O povo brasileiro tem o direito de exigir compromissos concretos, e não apenas declarações convenientes em época de eleição.

A verdade pode ser escondida por algum tempo, mas não para sempre. Os discursos mudam, as postagens desaparecem, as promessas se multiplicam. A história, porém, permanece.

Quem ontem chamava a proteção dos pobres de “bolsa-farelo” precisa explicar por que hoje se apresenta como seu defensor. Porque a fome não espera, a pobreza não é instrumento eleitoral e o direito de comer não pode depender da conveniência de quem ocupa o poder.

 

Fontes consultadas: reportagens do Estadão reproduzidas pelo UOL e pelo Jornal do Commercio, com registros das publicações antigas de Flávio Bolsonaro; Folha de S.Paulo, sobre o reajuste do Bolsa Família; Metrópoles e UOL, sobre as declarações da campanha em 19 de outubro de 2026.

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