quinta-feira, 22/10/26
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A mulher que eles não respeitam

Ilustração gerada por IA

POEMA | MIGUEL LUCENA

 

Miguel Lucena

Para eles, a mulher é corpo. Não é voz. Não é vontade. Não é direito.

É carne quando desejam. É silêncio quando convém.

Na lancha, o luxo. O champanhe. O relógio caro. E mulheres tratadas como objetos de uma festa em plena pandemia.

Enquanto o povo enterrava seus mortos, havia quem celebrasse a própria impunidade.

Nas denúncias, outras mulheres. Outros encontros. Outras noites. A sombra da guerra. A suspeita do tráfico. A dignidade posta à venda.

E depois, no palanque, a palavra família.

Na igreja, a palavra Deus.

Na campanha, a palavra moral.

Mas onde está a mulher?

A mãe que trabalha. A filha que estuda. A professora que luta. A vítima que denuncia. A trabalhadora que exige igualdade.

Essas não cabem na fantasia de quem confunde poder com posse.

Querem a mulher de joelhos. Nunca de pé.

Querem seu corpo. Não sua liberdade.

Querem sua obediência. Não sua opinião.

Querem decidir sobre seu ventre, seu salário, seu destino.

E ainda se apresentam como defensores da família.

Mas família não é propriedade.

Amor não é submissão.

Desejo não é licença para humilhar.

E mulher não é mercadoria.

Quem não respeita a liberdade de uma mulher não tem autoridade moral para falar em defesa da família.

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