Vorcaro, amor sem sexo

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Otoniel Saraiva*

Nos bastidores reluzentes de Brasília, onde o poder se embriaga de si mesmo, teria nascido o arranjo perfeito. Não havia paixão carnal, flertes ideológicos ou apegos partidários. O amor que unia os personagens dessa trama era puramente financeiro: uma devoção platônica e implacável ao cifrão, o verdadeiro “amor sem sexo” que move os moinhos da corrupção.
Sob o signo de Vorcaro, as suspeitas de articulações financeiras e políticas atravessam fronteiras partidárias. Esquerda, centro e direita aparecem no debate sobre o caso, levantando uma questão incômoda: até que ponto os interesses financeiros conseguem superar as divergências ideológicas?
A suspeita mais grave é a de que relações entre agentes privados e integrantes dos Três Poderes possam ter sido utilizadas para favorecer operações financeiras, influenciar decisões e proteger interesses bilionários.
A última peça desse tabuleiro envolve o Judiciário. É indispensável apurar, com rigor e respeito ao devido processo legal, eventuais conflitos de interesses, relações financeiras indevidas e possíveis interferências em investigações. Nenhuma autoridade pode estar acima da lei, mas nenhuma acusação deve ser tratada como condenação antecipada.
O que está em jogo ultrapassa as cifras. Trata-se da confiança nas instituições, da integridade das decisões públicas e da necessidade de impedir que interesses privados capturem estruturas do Estado.
Se as suspeitas forem comprovadas, o caso revelará como a promiscuidade entre dinheiro e poder pode transformar diferenças partidárias em meros detalhes diante do apetite pelo lucro.
A lição é amarga: quando o cifrão se torna objeto de devoção, a ideologia corre o risco de virar fantasia, o interesse público perde espaço e a República passa a ser tratada como um negócio privado.
Nesse cenário, o amor dispensa o sexo. Basta uma conta bancária bem abastecida.

*Otoniel Saraiva é economista, advogado e ex-deputado estadual pela Bahia.

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