
Miguel Lucena*
A coisa mais fácil do mundo é seguir um político em Brasília, onde as pessoas se misturam e ninguém sabe quem é quem. O risco aumenta quando o político visado começa a andar sem guia pelos arrebaldes da capital, desconhecendo o terreno em que pisa e os perigos que podem surgir pelo caminho.
De repente, um pistoleiro ou um estuprador pode se aproximar com um sorriso, pedindo uma selfie. Ou alguém pode receber dinheiro para provocar uma confusão, fabricar uma suspeita e tentar destruir a reputação de quem se tornou alvo de interesses políticos.
O ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho passou por uma situação que recomenda cautela. Levou o filho para jogar futebol na Vila Olímpica de Santa Maria, no Distrito Federal. Ao descer do automóvel com o menino, acionou o travamento das portas, fazendo piscar automaticamente as luzes do veículo. Alguém interpretou os sinais luminosos como uma suposta abordagem a crianças.
O próprio Ricardo acionou a Polícia Militar para esclarecer a situação. Segundo as informações divulgadas sobre o episódio, a Polícia Civil do Distrito Federal teria considerado o caso um mal-entendido, com perspectiva de arquivamento da ocorrência.
Mas há um detalhe que merece atenção: segundo relatos, a notícia com acusações contra o ex-governador chegou a um blog de Alagoas antes mesmo que a imprensa de Brasília tomasse conhecimento do episódio.
Como uma ocorrência localizada na periferia do Distrito Federal teria atravessado fronteiras tão rapidamente, chegando a um veículo de outro estado? Quem transmitiu a informação? Com qual interesse?
Pode ter sido apenas um mal-entendido, desses que nascem de uma interpretação equivocada e ganham proporções desmedidas. Mas também não se pode descartar, como hipótese a ser investigada, a possibilidade de uma armação encomendada para atingir politicamente Ricardo Coutinho.
A rapidez da divulgação, isoladamente, não comprova qualquer conspiração. Entretanto, justifica perguntar quem produziu a primeira versão, quem a distribuiu e por que não houve o cuidado de ouvir o acusado antes de expor sua imagem.
Ricardo Coutinho precisa redobrar os cuidados. Não porque a periferia seja território de criminosos — ali vivem milhares de trabalhadores honestos —, mas porque uma figura pública pode ser surpreendida em qualquer lugar por provocadores, oportunistas ou pessoas mal-intencionadas.
Na política, uma reputação construída ao longo de décadas pode sofrer danos em poucos minutos. E, nos tempos atuais, uma mentira pode percorrer o país inteiro antes que a verdade consiga sair da delegacia.
*Miguel Lucena é Delegado aposentado da PCDF, advogado e jornalista.

