segunda-feira, 12/10/26
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Querida professora Mercedes Amália: 96 anos de fé, coragem e dedicação à educação

 

Maria José Rocha
Lima – Zezé Rocha

Há pessoas que passam pela nossa vida. E há aquelas que, pela força de sua bondade, de sua fé e de seu testemunho, tornam-se parte da nossa própria história. Você, querida Mercedes, é uma dessas pessoas.

Mercedes. Arquivo pessoal

Agora, aos seus 96 anos, posso dizer que a Bahia teve em você um de seus anjos bons. Uma mulher que dedicou a vida à família, à Igreja, ao Senhor Deus e, sobretudo, à educação.
Solteira por toda a vida, você fez da dedicação aos outros uma forma de amor. Como professora alfabetizadora da rede municipal de ensino, conquistava seus alunos pela competência, pela paciência e pela amorosidade. Os resultados de seu trabalho eram frutos da dedicação de uma mestra que acreditava que ensinar era também cuidar.

Foi em 1980 que nossas histórias se encontraram. Eu liderava o Movimento dos Professores Primários (MPP), numa época em que os professores primários ainda não podiam se filiar à APLB. Você, uma mulher profundamente católica, nunca havia sido militante política e muito menos imaginava aproximar-se de um movimento liderado por alguém que, naquele tempo, era apresentada como “comunista”.
Mas você me levou a sério.
E costumava dizer, com a firmeza que lhe era própria:

— Zezé é a única política em quem confio, porque defende verdadeiramente a educação.
E então você arregaçou as mangas.
Percorreu imensas regiões a pé, visitou escolas, distribuiu panfletos e boletins, convocou professores para passeatas e assembleias. Lutou pela escola pública, gratuita e de qualidade e pela valorização dos professores. Lutou, também, para que os professores primários conquistassem o direito de ingressar nos quadros da APLB.
Alguns, intrigados, perguntavam:
— A senhora, tão católica, apoia essa Zezé? A senhora sabe que ela é comunista?
E você respondia, simplesmente:
— Ela é diferente. Ela é de Deus.
Que resposta extraordinária, Mercedes!
Nas grandes assembleias realizadas no Cine Nazaré, que chegaram a reunir cerca de três mil professores — muitos deles permanecendo do lado de fora, no Largo de Nazaré —, você pedia a palavra e rezava pelos professores.

E eu vi acontecerem coisas que, para mim, tiveram o sabor de milagres.
Fui inesperadamente convidada pelo governo português para participar de uma conferência no Parlamento. Ao chegar a Lisboa, encontrei a cidade coberta de banners de Santo Antônio.
No retorno, recebi em meus braços o meu amado filho Lucas Vicente, então com quase um ano de idade.
E havia ainda outro sonho: eu queria fazer um mestrado. Pouco depois, recebi um convite do coordenador da pós-graduação para falar sobre o Movimento dos Professores Baianos. Mais tarde, fui selecionada para o Mestrado em Educação.
Talvez você nunca tenha imaginado a dimensão do que aquelas suas orações significaram para mim.
Pouco a pouco, fui aprendendo mais sobre Deus. Voltei a frequentar a Igreja. Fiz Teologia. E compreendi que a fé não precisa erguer muros entre as pessoas; ela pode, ao contrário, construir pontes.

Você já chegou aos 96 sem se entregar — e nós não vamos permitir que se entregue agora!
Agora é rumo aos 100!
E, quando chegar lá, quero estar novamente ao seu lado para dizer:
Obrigada, Mercedes, por ter acreditado em mim.
Obrigada por ter caminhado comigo.
Obrigada por suas orações.
Obrigada por me ensinar, com sua própria vida, que a fé também pode ser uma forma de coragem.
Com todo o meu carinho, minha gratidão e minha eterna amizade,
Maria José Rocha Lima – Zezé Rocha

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