terça-feira, 06/10/26
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Feliz ano velho

 

Chega o fim das eleições de 2026, e o que se encerra não é apenas um ciclo de votações, mas um ano inteiro de promessas, comícios, vozes que se elevaram e vozes que se calaram. Pelas urnas passaram escolhas para governadores, senadores, deputados federais e estaduais — cada cargo uma peça que vai ou não permanecer no tabuleiro da República. Para muitos, a vitória veio com o brilho da confirmação: o mandato renovado, a cadeira mantida, o nome gravado de novo na lista dos que continuam a servir, ou a servir-se, no poder. Mas para outros, a noite da apuração trouxe um silêncio pesado, e é sobre esses que a história menos fala.

Quando a reeleição não acontece, não é só um cargo que se perde. É um mundo inteiro que desmorona devagar, em silêncio, sem manchetes nem aplausos. O deputado que não renova vê, pouco a pouco, sumir tudo o que parecia sólido. A estrutura que levou anos para construir desfaz-se como fumaça: o gabinete que foi lar e escritório ao mesmo tempo, a equipe que trabalhava lado a lado, os contatos que abriam portas e agora já não respondem. O prestígio que acompanhava o cargo some na mesma velocidade em que os votos não chegam. O telefone que tocava o dia inteiro emudece; os convites que chegavam aos montes param de vir.

Perder a reeleição é percorrer um calvário de etapas silenciosas. Primeiro, a negação: “vai dar certo, ainda apura”. Depois, a constatação fria dos números. E por fim, o vazio: não é apenas deixar uma cadeira, é deixar de ser quem se era. O poder tem um brilho próprio que, quando se apaga, deixa tudo ao redor mais escuro. Amizades que pareciam inquebráveis esfriam; aliados que juraram lealdade procuram quem agora está no lugar. A influência que movia decisões, que trazia obras, que abria caminhos, deixa de existir de um instante para o outro.

Há quem diga que é só voltar para casa, que a vida segue. Mas não é tão simples assim. Quem viveu no palco, de repente se vê na plateia, e nem sempre encontra lugar. A rotina muda, os propósitos se embaralham, e o que vinha sendo planejado para o futuro desaba. O que resta, então? Resta a consciência do que foi feito, ou do que ficou por fazer. Resta saber se o tempo dedicado ao cargo serviu de fato ao povo, ou apenas a si mesmo.

Por isso, este não é um ano novo que se celebra com festa igual para todos. É um ano velho que se despede levando consigo esperanças e ilusões, mas também deixando lições. Para os que ficam: que não esqueçam de onde vieram e a quem servem. Para os que partem: que encontrem caminho novo, sem a máscara do poder, mas com a dignidade que nenhuma urna pode tirar. O calendário vira a página, mas a verdade permanece — e ela é a única que não precisa de mandato para existir.

Otoniel Saraiva é Economista, Advogado, Ex Deputado Estadual pela Bahia

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