Ao menos 12 ações pedem autorização para importar versões paraguaias da tirzepatida; em cinco delas, juízes autorizaram a entrada do medicamento proibido pela Anvisa.

As versões paraguaias de canetas à base de tirzepatida viraram alvo de disputa na Justiça Federal. Com a proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pacientes têm pedido autorização judicial para importar o medicamento e, mesmo sob o veto, alguns têm conseguido. A Anvisa tem recorrido das decisões e especialistas alertam que o medicamento sem aval sanitário nacional representa um risco.
➡️ A tirzepatida é um dos medicamentos mais modernos entre os GLPs. A substância, que é aprovada no Brasil, é recomendada para pacientes em tratamentos para a obesidade e diabetes.
O g1 identificou ao menos 12 ações na Justiça Federal. Em cinco delas, juízes cederam a autorização de forma liminar para a importação sob a alegação de que os medicamentos são de uso pessoal. As ações foram no Ceará, Alagoas e Rio Grande do Sul.
É possível que haja mais, já que o sistema da Justiça não permite uma busca por termos e as ações que o g1 localizou foram a partir de liminares públicas. É possível que o número seja ainda maior, já que há casos em segredo de Justiça.
A Anvisa tem tentado reverter as decisões que ignoram as proibições sanitárias, que já barraram nove versões de tirzepatida produzidas no Paraguai.
O principal argumento dos pacientes é o preço: o tratamento com a dose mais baixa de Mounjaro, caneta de tirzepatida permitida no Brasil, custa cerca de R$ 1,4 mil por mês. As canetas com a dose mais alta no Paraguai saem a R$ 460 – ou seja, quase um terço do preço.
De acordo com a Receita Federal, o volume de apreensões de canetas emagrecedoras explodiu neste ano. De janeiro a maio, foram 414 mil unidades – a maior parte delas no Paraná, que faz fronteira com o Paraguai. (Veja mais abaixo)
➡️ A Anvisa tem razões sanitárias para a proibição. Esses medicamentos nunca foram avaliados no Brasil. Todo medicamento que circula no país passa por uma análise da agência para comprovar que é seguro e eficaz — e as versões paraguaias não passaram por isso.
Até agora, são 44 mortes investigadas por uso de tirzepatida, de acordo com o sistema de farmacovigilância da Anvisa. De acordo com a agência, não há como saber quantas delas envolvem medicamentos irregulares.
O resultado é um conflito que pressiona o Judiciário e divide opiniões até dentro dele: há decisões favoráveis e desfavoráveis baseadas nos mesmos argumentos.. Especialistas em direito explicam que as decisões de primeira instância, a maioria liminares, podem cair porque a Justiça não pode se sobrepor à Agência.
As canetas paraguaias e o dilema jurídico
A tirzepatida é a substância mais moderna entre os GLPs disponíveis no mercado brasileiro. No entanto, a medicação tem uma barreira de acesso, é a mais cara entre as opções e não tem uma versão nacional.
Com isso, versões paraguaias começaram a circular no país – o que vem sendo combatido pelos órgãos de saúde brasileiros. Nove marcas estão proibidas no país por determinação da Anvisa, são elas: Lipoless, Tirzec, Gluconex, Tirzedral, Slimex MD, Slimex, Rapha e a tirzepatida produzida pelas marcas Synedica e TG.
➡️ A agência aponta que os medicamentos não se submeteram a avaliação sanitária no Brasil e, com isso, não há como garantir eficácia e segurança. Além disso, a tirzepatida precisa ser mantida entre 2°C e 8°C desde a produção. Transportada em bagagem de mão, seja por contrabandistas, seja por quem obteve liminar judicial, não há um controle de temperatura.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/Y/F/kzPbFPQLe1H4N6b1pIYQ/novo-projeto-15-.jpg)
Polícia apreende tirzepatida e cabelo escondidos com passageiras paraguaias no Paraná — Foto: PRF
Hoje, a entrada desses medicamentos no país é considerada contrabando – o que é crime. Apesar das ações de fiscalização feitas pela Receita Federal e pelas polícias estaduais e federais, canetas paraguaias para diabetes e obesidade continuam sendo anunciadas e vendidas em redes sociais e aplicativos de mensagens.
A dimensão desse mercado aparece nos números das apreensões: apenas entre janeiro e maio de 2026, a Receita Federal reteve 414 mil unidades de medicamentos à base de GLP-1 irregulares. O volume é mais de 12 vezes superior ao registrado em todo o ano de 2025, quando foram apreendidas cerca de 33 mil unidades.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/3/A/zwzzoFQtK3GwbYbhEBhA/260618-info-canetas-apreendidas.png)
Canetas apreendidas — Foto: Arte/g1
Desde o início do ano, a Anvisa tem fechado o cerco contra esse tipo de contrabando, apontando o risco de saúde. Com isso, pacientes que usavam o medicamento passaram a recorrer à Justiça.
Nas ações, alguns pacientes queriam a autorização de importação, outros pediam a devolução de medicamentos já comprados, mas apreendidos pela fiscalização na fronteira.
Os pacientes alegaram ter receita médica, doenças como diabetes, obesidade e terem esgotado outras possibilidades, como bariátrica, uso de outras canetas emagrecedoras. Nos pedidos, eles alegam que com o valor do medicamento no país é impossível manter o tratamento e questionam a decisão da Anvisa de impedir a entrada do medicamento.
A advogada Priscilla Ruschel, que representa dois pacientes com decisões favoráveis, explica que tem pedido à Justiça o reconhecimento da importação para uso pessoal e explica que, na visão dela, isso não fere as decisões da Anvisa.
“O registro na Anvisa é necessário para integrar a cadeia comercial. Para uso pessoal, essa exigência não se aplica”, diz.
A Anvisa contesta a posição. Ao g1, a agência explicou que existe a permissão de importação de medicamentos para uso pessoal, mas que não vale para aqueles que tenham restrições no Brasil, como é o caso dos medicamentos paraguaios.

/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/A/9/a67GdLSI29B1N6ArkMIQ/efca328c-a872-4804-8371-af6a95a4d62d.jpg)

