Prefeitos pressionam para mudar regra de reajuste do piso salarial e desvalorizar os professores

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Maria José Zezé
Ilustração


Maria José Rocha Lima
 
No último dia 14, cerca de 300 prefeitos se concentraram no salão verde da Câmara dos Deputados para pressionar os congressistas no sentido de evitarem o aumento de gastos municipais e vergonhosamente têm como principal alvo de ataque o piso salarial dos combalidos professores brasileiros. Um dos principais pontos da pauta prioritária da Confederação Nacional dos Municípios –CNM- em Brasília é o que obriga parlamentares a pautar o Projeto de Lei 3776/08, que muda o cálculo do piso do magistério. Querem que o reajuste seja pelo INPC dos últimos doze meses (recomposição salarial), em vez de valorização pela lei do piso, como é hoje a Lei nº 11.738/2008. O discurso é evitar aumento de gastos previstos para 2022, alterando o cálculo do piso do magistério. Assim, os professores seriam os prejudicados, a categoria atacada. Caso os prefeitos consigam na pressão mudar o cálculo do piso, que tomaria por base o INPC, o reajuste de 31,3% previsto a partir de janeiro de 2022, calculado pelo valor aluno ano, cairá para 11%, estimativa da inflação 2021, uma queda de quase 2/3 no valor do reajuste, como se não bastasse o não cumprimento da Lei do Piso Professor por parte de 63% dos municípios brasileiros.
Os governantes querem derrubar a Lei 11.738, de 16 de Julho de 2008 – que criou o Piso Salarial Profissional Nacional- PSPN-. No Brasil, os professores continuam sofrendo defasagem salarial frente a outras categorias profissionais com mesmo nível de escolaridade e ocupam a última posição remuneratória entre as mais de 40 nações avaliadas anualmente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Os professores do ensino médio no Brasil recebem quase a metade da média praticada por 38 países. A OCDE vem avaliando anualmente, sem que haja melhora. Mesmo após a criação do PSPN, os professores recebem salários aviltantes.  
Estudos divulgados pela APEOESP revelam dados estarrecedores: os professores recebem salários 71% a menos do que profissionais de outras áreas, com nível de formação superior. O Plano Nacional de Educação – PNE-, Lei 13.005/ 2014, dispôs sobre a valorização do professor em quatro das suas 20 metas. E essa valorização tinha prazo de seis anos para a sua execução.
O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, fala na mídia para espantar os desavisados: “Se o piso do magistério não sofrer alteração, o impacto será de R$ 29 bilhões”. E daí?  A estimativa da receita total do Fundeb para o exercício de 2021 foi de R$ 176,3 bilhões. Desse montante, R$ 160,3 bilhões totalizam as contribuições dos Estados, Distrito Federal e Municípios ao Fundo, e R$ 16 bilhões correspondem à complementação da União.  
Há 13 anos, o piso salarial foi estabelecido na Lei 11.738, de 16 de julho de 2008, mas 63% dos municípios não vêm cumprindo, sem que sofram qualquer sanção. Em todo o país é possível notar ofertas salariais que variam entre R$ 1.700 a R$ 5 mil. Os estados que oferecem a maior média salarial atualmente são: Distrito Federal (R$ 5.167,64), Pará (R$ 4.341,34) e Maranhão (R$ 4.223,44). A valorização preconizada, com a criação do FUNDEB, virou uma farsa. Há apenas reposição da inflação ano após ano, obrigando os professores a lutarem incessantemente pelo piso inalcançável.  
 Como numa alegoria do pau de sebo, os professores lutaram e lutam a luta desigual: contra altura, o atrito e enfrentando uma torcida implacável. Se os prefeitos conseguirem rebaixar ainda mais o reajuste, estarão enterrando, definitivamente, a lei do piso salarial, concorrendo para a desvalorização dos professores brasileiros. 

Maria José Rocha Lima é mestre em educação pela Universidade Federal da Bahia-UFBA. Foi deputada de 1991 a 1999. É presidente da Casa da Educação Anísio Teixeira. Diretora da Associação Brasileira de Estudos e pesquisas em Psicanálise – ABEPP. Soroptimista, filiada à SI Brasília Sudoeste.   

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