terça-feira, 03/03/26
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Perder um filho é como achar a morte

Ilustração

 

Miguel Lucena

Os versos que ouvi declamados por Tião Lucena quando eu ainda era menino voltaram hoje como uma lâmina: perder um filho é como achar a morte. Não há dor comparável, não há palavra que sustente o peso desse desabamento da alma.
Na manhã de hoje, na Epia, o destino foi cruel demais. Karla Thaynnara Nogueira, 25 anos, perdeu o controle da moto, caiu, foi atropelada. Uma tragédia que já seria insuportável para qualquer família. Mas o destino — esse carrasco que não sabe medir golpes — armou mais um: o pai dela, o policial militar José Carlos Andrade Nogueira, vinha atrás, na mesma via, na mesma hora. Viu a filha caída, viu a morte antes de ser avisado por qualquer autoridade. Viu o impossível.
E então aconteceu aquilo que só os que conhecem o abismo da paternidade podem compreender: ele não suportou. Testemunhas dizem que tirou a própria vida ali mesmo, como se quisesse acompanhar a filha na travessia final, como se o corpo não tivesse mais serventia quando o coração já tinha sido arrancado do peito.
A PMDF ainda tentou contê-lo, como se fosse possível segurar um homem cujo mundo havia acabado minutos antes. Não deu. A mesma mão treinada para salvar, proteger, combater — agora sucumbia à dor que não cabe em nenhum manual, em nenhum protocolo.
A morte de pai e filha na mesma manhã não é apenas uma tragédia familiar. É uma pergunta cruel lançada ao céu de Brasília: como se continua depois disso? Talvez não se continue. Talvez apenas se arraste o resto dos dias — para quem ficou — tentando entender o que nunca fará sentido.

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