
Analista de Inteligência. Foto: Reprodução
O Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) são organizações criminosas cujos objetivos não incluem a tomada do poder político, a realização de golpes de Estado, a implantação de ideologias voltadas à mudança da forma de governo ou a criação de territórios independentes do poder central.
A gênese dessas organizações, surgidas no Brasil, esteve inicialmente ligada à defesa dos interesses dos presos dentro do sistema penitenciário. Com o tempo, porém, expandiram suas atividades para a exploração de mercados ilícitos altamente lucrativos, como o tráfico de drogas, os jogos de azar, a prostituição e outras atividades clandestinas que geram elevados ganhos financeiros sem incidência de tributação.
O Comando Vermelho teve origem no Rio de Janeiro, a partir da chamada Falange Vermelha, consolidando-se desde cedo como uma organização criminosa. No estado fluminense, disputou e ainda disputa espaço com outros grupos, como o ADA (Amigos dos Amigos) e o TCP (Terceiro Comando Puro), além da já extinta Falange Jacaré.
Os lucros extraordinários obtidos nessas atividades ilegais impulsionaram a adoção de mecanismos de lavagem de dinheiro e a corrupção de agentes públicos. O que começou com a cooptação de policiais expandiu-se para outras esferas do poder, alcançando, em alguns casos, setores da política.
Com a globalização dos mercados ilícitos e a ampliação de sua capacidade operacional, CV e PCC passaram a integrar a logística internacional do tráfico de drogas. A cocaína produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia, bem como a maconha oriunda do Paraguai, passou a circular pelo território brasileiro sob a influência dessas organizações.
Nesse processo, adquiriram conhecimentos e métodos utilizados por organizações criminosas transnacionais, como a Cosa Nostra e a N’Drangheta italianas, além de grupos oriundos da antiga União Soviética, da Chechênia, da Yakuza japonesa e das Tríades chinesas. Algumas dessas estruturas mantêm presença identificada no Brasil, especialmente em grandes centros econômicos e portuários.
O cenário atual sugere que PCC e CV vêm se comportando de maneira semelhante às grandes organizações criminosas internacionais, estabelecendo parcerias e sociedades operacionais transnacionais. Ainda não se pode afirmar a existência de uma organização criminosa plenamente globalizada, mas já se observam especializações em áreas como logística, transporte de drogas e lavagem internacional de capitais.
A experiência do México ilustra esse fenômeno. A proximidade com os Estados Unidos e a consolidação dos cartéis transformaram o país em um dos principais centros do narcotráfico mundial. O Cartel de Sinaloa tornou-se referência dessa estrutura criminosa altamente organizada. No Haiti, embora a dinâmica seja distinta, grupos armados também exercem crescente influência sobre o território e as instituições.
Diante desse contexto, a decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e CV como organizações terroristas pode ser interpretada como uma medida alinhada à política externa do atual governo norte-americano. A discussão que surge é se tal classificação está baseada em critérios universais ou se reflete uma escolha seletiva diante de determinadas ameaças.
Independentemente dessa classificação, é evidente que o enfrentamento dessas organizações exige cooperação internacional, compartilhamento de inteligência, integração entre agências de segurança e operações conjuntas capazes de enfrentar estruturas criminosas cada vez mais sofisticadas e transnacionais.
Marco Antonio dos Santos
Analista de Inteligência


