O sol dos mortos

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Miguel Lucena

 

Miguel Lucena

“A glória é o sol dos mortos”, disse Honoré de Balzac.
Há pessoas que economizam elogios como se uma palavra de reconhecimento pudesse empobrecer quem a pronuncia. Diante do talento alheio, silenciam. Diante de uma conquista, procuram um defeito. Quando alguém cresce, em vez de estenderem a mão, levantam suspeitas.

Ilustração gerada por IA

Talvez seja inveja. Talvez orgulho. Ou apenas a incapacidade de admitir que outra pessoa possui uma luz que não depende da nossa autorização para brilhar.
Em vida, o artista é ignorado, o trabalhador é esquecido, o amigo é pouco abraçado. Depois que morrem, surgem discursos, homenagens, placas, retratos e longos textos nas redes sociais. Descobrem virtudes que nunca tiveram coragem de mencionar diante do homenageado.
Mas que sol inútil é esse, que só aquece a pedra fria do túmulo?
É preciso aprender a oferecer flores enquanto as pessoas ainda podem sentir seu perfume. Dizer “você é importante” antes que o silêncio seja definitivo. Reconhecer o talento sem medo de diminuir o próprio valor.
O elogio sincero não apequena ninguém. Ao contrário: revela grandeza em quem sabe reconhecer a grandeza dos outros.
Não esperemos a morte transformar afeto em remorso e admiração em discurso. A melhor homenagem é aquela que chega em vida, encontra olhos capazes de se emocionar e um coração ainda batendo para agradecer.

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