domingo, 03/05/26
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Formigas cirurgiãs fazem amputações para salvar vida de companheiras

Biólogos explicam como formigas identificam lesões, evitam infecções e protegem a colônia

Jason Edwards / Getty Images

 

As formigas já impressionavam cientistas pela organização social, capacidade de construir ninhos complexos e trabalho coletivo altamente coordenado. Agora, um comportamento ainda mais surpreendente chamou atenção: algumas espécies conseguem amputar partes do corpo lesionadas de companheiras feridas para aumentar as chances de sobrevivência e impedir que infecções ameacem o grupo.

O fenômeno foi observado na espécie Camponotus floridanus, mais conhecidas como formigas carpinteiras. Quando uma operária sofre ferimentos nas pernas, por exemplo, outras integrantes da colônia avaliam a situação e escolhem entre limpar intensamente a lesão ou remover o membro atingido.

A conduta varia conforme o local do dano e pode ser decisiva para manter a operária viva. Para a bióloga Gabriela Procópio, professora e coordenadora no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), o comportamento impressiona, mas está alinhado ao que já se sabe sobre as formigas.

“É uma descoberta muito surpreendente, mas coerente com o que já sabemos sobre insetos sociais”, afirma.

Segundo ela, formigas vivem em sociedades profundamente integradas, nas quais cada indivíduo exerce funções importantes para a manutenção da colônia. Por isso, preservar operárias feridas pode representar vantagem coletiva.

Gabriela lembra que os animais já demonstram habilidades sofisticadas em outras áreas, como agricultura de fungos, engenharia dos ninhos, defesa territorial e divisão de tarefas.

Como elas sabem quando amputar

A decisão de amputar não ocorre ao acaso. As formigas primeiro tocam, examinam e manipulam a região lesionada. A partir de sinais físicos e possivelmente químicos, definem a melhor resposta.

“Feridas mais próximas do corpo, como no fêmur, levam à amputação da perna, enquanto feridas mais distais, como na tíbia, são tratadas com limpeza intensiva”, explica Gabriela.

Na prática, o grupo aplica diferentes estratégias conforme o risco de infecção e a chance de recuperação da companheira. “O sucesso da amputação ou da limpeza na sobrevivência das operárias mostra que a estratégia mais eficiente acaba prevalecendo”, completa a especialista.

Embora o comportamento pareça cirúrgico, não há evidências de que as mandíbulas tenham evoluído apenas para amputações. Elas já são ferramentas multifuncionais usadas diariamente.

As formigas utilizam a boca para carregar materiais, cavar galerias, manipular alimento, defender o ninho e capturar presas. Essa versatilidade permite também remover partes lesionadas, sobretudo em regiões articuladas da pata.

Colônias têm “equipe médica” flexível

Para o biólogo Luan Dias Lima, doutor em biologia animal pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a descoberta revela o grau de organização interna das colônias de formigas. “São sociedades complexas formadas majoriatariamente por fêmeas, divididas em castas com funções específicas”, afima.

Segundo ele, existem rainhas, operárias, soldados, caçadoras e indivíduos que cuidam da prole.Ainda assim, o sistema é flexível: se falta mão de obra em uma área, outras operárias podem assumir a função.

“Se o grupo de enfermeiras estiver sobrecarregado ou ausente, outras operárias podem assumir o papel”, destaca. Isso ajuda a explicar como o atendimento às feridas pode ocorrer rapidamente, sem depender de um único grupo especializado.

Outro aspecto notável é que muitas formigas seguem ativas mesmo depois da amputação. Elas conseguem se locomover e continuar contribuindo para a colônia. “No mundo das formigas, o trabalho só para quando a vida termina”, resume Lima. A permanência dessas operárias em atividade ajuda no forrageamento, na limpeza do ninho, na defesa e no cuidado com ovos e larvas.

O que humanos podem aprender com elas

Segundo os especialistas, o comportamento das formigas pode inspirar pesquisas em diversas áreas. Estratégias naturais de controle de infecções, triagem rápida e cooperação descentralizada despertam interesse em medicina, robótica e logística.

Mais do que curiosidade, a Camponotus floridanus demonstra que sociedades de insetos desenvolveram soluções eficientes para problemas complexos muito antes dos humanos.

O comportamento dos insetos mostra como a sobrevivência individual pode estar ligada ao bem coletivo dentro do formigueiro. Em vez de abandonar integrantes feridas, a colônia investe energia para salvá-las quando isso vale a pena. Para os cientistas, é mais uma prova de que pequenos insetos podem exibir estratégias sociais altamente sofisticadas e, muitas vezes supreendentes.

 

 

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