Miguel Lucena
O eleitor chegou devagar,
como quem não queria nada,
mas querendo.
— E aquela conversa
que o senhor teve comigo?
O candidato sorriu
com sorriso de santinho
em véspera de eleição.
— Conversa a gente tem muitas,
meu amigo.
O importante é a esperança.
— Mas o senhor disse
que dava um jeito…
— Jeito sempre se dá.
A política é a arte
de encontrar caminhos.
O eleitor coçou a cabeça,
olhou para um lado,
olhou para o outro.
— É que lá em casa
a necessidade apertou.
— Eu conheço o sofrimento do povo.
— E aquilo que eu pedi?
— Estamos vendo.
— Vendo como?
— Com carinho.
— E sai?
— Tudo tem seu tempo.
— Antes ou depois?
— O futuro pertence a Deus
e o voto pertence ao povo.
O eleitor franziu a testa.
— Mas o senhor falou
que podia ajudar…
— Posso ajudar Brasília,
o bairro,
a comunidade inteira.
— Eu estou falando
daquele negócio.
O candidato ajeitou a camisa,
consultou o relógio
e procurou uma saída:
— Meu compromisso
é com todos.
O eleitor segurou-o pelo braço,
baixou a voz
e foi direto
sem dizer diretamente:
— Tá bom.
Mas chega de conversa.
E aí,
vai me dar?

