Contardo Calligaris – “O difícil é ser moral. Ser imoral é que é para principiantes”

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“A malandragem é uma conduta moral de uma criança de 9 anos. O difícil é crescer.”
Maria José Rocha Lima – Zezé Rocha¹

Diante da tristeza incomensurável que compartilho com milhões de brasileiros em relação aos rumos do nosso país, recorri a Freud. Afinal, quem melhor do que ele para nos ajudar a compreender as contradições humanas e, quem sabe, explicar o nosso amado Brasil?
Como Sigmund Freud morreu há muito tempo e não teve a oportunidade de analisar o Brasil varonil dos nossos dias, busquei socorro nas reflexões de Contardo Calligaris, um dos mais admirados psicanalistas contemporâneos.
Italiano de nascimento, com formação e trajetória intelectual também ligadas à França, Calligaris dedicou parte de sua obra a compreender a sociedade brasileira. Não se contentou com os rótulos atribuídos ao nosso povo, fossem eles relacionados aos brasileiros comuns ou aos grandes personagens das elites.
Não basta conquistar o poder. É preciso compreender a responsabilidade que ele impõe.
A política exige compromisso com as instituições, respeito às divergências e disposição para construir soluções coletivas.
É claro que o próprio Calligaris reconhece que o brasileiro não pode ser reduzido à malandragem. Ele também identifica, na valorização da consciência individual diante das convenções, uma possibilidade de comportamento profundamente moral.
Essa ressalva é fundamental.
Nosso povo não é apenas o povo do jeitinho. É também o povo da solidariedade, da resistência, da criatividade, do trabalho e da capacidade de enfrentar adversidades.
O desafio consiste em transformar essas qualidades em fundamentos de uma sociedade na qual a esperteza individual não seja mais valorizada do que a responsabilidade coletiva.
Talvez seja essa uma das grandes lições que Contardo Calligaris nos deixou.
O Brasil não precisa aperfeiçoar sua malandragem. Precisa aprofundar sua consciência moral.
Não precisamos de mais esperteza para contornar as leis, mas de maturidade para construir instituições que funcionem para todos.
Não precisamos transformar nossos defeitos em símbolos de orgulho nacional, mas reconhecer nossas contradições e enfrentá-las com coragem.
Afinal, como nos ensina Calligaris, ser imoral é fácil.
O difícil é crescer. O difícil é ser moral.

CALLIGARIS, Contardo. Hello Brasil! e outros ensaios: psicanálise da estranha civilização brasileira. Obra publicada originalmente em 1991.
CALLIGARIS, Contardo. Todos os reis estão nus. 2013.
CALLIGARIS, Contardo. Entrevista reproduzida na coluna de Reinaldo Azevedo, revista Veja: “O difícil é ser moral. Ser imoral é que é para principiantes” .

¹ Maria José Rocha Lima é professora, mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutora em Psicanálise e teóloga. Foi deputada estadual da Bahia de 1991 a 1999.

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