Como a China construiu um ecossistema industrial sem precedentes

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Mesmo diante da desaceleração econômica recente, imposta pela crise no setor imobiliário, a demanda elétrica chinesa continua expandindo a taxas que superam o resto do mundo somado

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*Por Rinaldo Mancin/CNN

Por muito tempo, o debate sobre a ascensão econômica da China ancorou-se em clichês conhecidos, como a mão de obra barata, o câmbio artificialmente desvalorizado e a cópia de propriedade intelectual. Embora essas premissas carreguem fatias de verdade histórica, elas já não explicam a complexidade do cenário atual.

Um relatório recente do Rhodium Group, publicado em março de 2026, oferece uma leitura muito mais sofisticada e, por isso mesmo, inquietante. Pequim estruturou o que analistas conveniaram chamar de “electro-state”, ou Estado elétrico, um ecossistema cujas implicações globais o Ocidente ainda custa a decifrar.

A tese central do documento é de uma simplicidade elegante, mas de desdobramentos vertiginosos. A China integrou, em uma cadeia única e autorreforçável, três pilares fundamentais: a geração de energia elétrica barata, o processamento de metais industriais e a fabricação de tecnologias verdes.

Cada elo atua como catalisador do próximo, de modo que a eletricidade abundante reduz o custo de refino do alumínio, do cobre e do lítio. Esses metais baratos, por sua vez, barateiam a produção de painéis solares, turbinas eólicas e baterias, enquanto as fontes renováveis injetam ainda mais energia de baixo custo na rede. O ciclo se retroalimenta em um redemoinho industrial que o resto do mundo observa com uma mistura de admiração e impotência.

Os dados apresentados pelo Rhodium Group impressionam e desconfortam qualquer planejador estratégico ocidental pela escala que desafia a compreensão.

Em 2025, a geração combinada das energias solar e eólica na China superou o consumo industrial total dos Estados Unidos. Em 2026, esta mesma produção limpa ultrapassará a somatória dos consumos doméstico e industrial americanos.

No campo da eletrificação da frota, os veículos elétricos em circulação na China já poupam o equivalente a 1,76 milhão de barris de petróleo por dia, blindando progressivamente o país contra choques geopolíticos no mercado de combustíveis fósseis.

Desde a virada do milênio, o país asiático respondeu por 60% de todo o crescimento do consumo global de eletricidade. Mesmo diante da desaceleração econômica recente, imposta pela crise no setor imobiliário, a demanda elétrica chinesa continua expandindo a taxas que superam o resto do mundo somado. Trata-se de uma anomalia estatística que desafia os modelos econômicos tradicionais, nos quais o consumo energético costuma flutuar em estrita simetria com o Produto Interno Bruto.

Para nações que buscam estruturar cadeias de suprimentos próprias em minerais críticos, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, a China tornou-se um paradigma quase inalcançável. Os chamados efeitos de rede do Estado elétrico chinês foram lapidados ao longo de décadas, amparados por crédito estatal subsidiado, metas rígidas de longo prazo e uma tolerância hercúlea a margens de lucro quase nulas.

De acordo com o Rhodium Group, a combinação de processamento de metais, infraestrutura energética e manufatura avançada que a China consolidou é quase impossível de ser replicada integralmente em qualquer outro mercado de forma isolada.

Para as economias ocidentais, o desacoplamento exigirá tarifas protecionistas severas, cujo preço político e econômico será repassado ao consumidor final na forma de produtos mais caros. É um dilema clássico de ação coletiva, no qual é preciso ponderar se o valor estratégico da autonomia justifica o custo inflacionário da independência.

O Brasil assiste a esse xadrez de uma posição de vulnerabilidade confortável, mas perigosa. Somos grandes exportadores de minério de ferro, alumínio, nióbio e lítio, mas continuamos a figurar como importadores dos produtos manufaturados de alto valor agregado, muitas vezes produzidos em solo chinês com os nossos próprios insumos. Embora o relatório não cite o Brasil nominalmente, o diagnóstico é claro ao apontar que a janela de oportunidade para verticalizar essa produção está se estreitando rapidamente.

O país possui credenciais únicas para o jogo, ostentando uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta e um potencial solar e eólico vastíssimo. Todavia, vantagens comparativas não se traduzem automaticamente em densidade industrial. O que nos falta não é recurso natural ou energia limpa, mas coordenação de política industrial, crédito de longo prazo direcionado e a coragem política para definir quais apostas estratégicas o país sustentará nas próximas décadas.

A China não forjou seu Estado elétrico por acaso ou por forças cegas de mercado; fez isso com planejamento central obstinado, paciência histórica e resiliência financeira. O alerta definitivo está dado: o tempo para o resto do mundo aprender essa lição está se esgotando.

*Rinaldo Mancin é Engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Sustentável (CDS/UnB) e Diretor de Sustentabilidade do IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração)

 

 

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