terça-feira, 28/04/26
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A luta histórica das empregadas domésticas e a mágica cotidiana de Marta Lima

Ilustração gerada por IA

 

Maria José Rocha Lima

No silêncio das casas brasileiras, muito antes do reconhecimento legal e social, milhões de mulheres sustentaram famílias inteiras com o trabalho doméstico. A história das empregadas domésticas no Brasil é, antes de tudo, uma história de resistência, dignidade e conquista — uma luta que ainda hoje se reflete no cotidiano de profissionais como a nossa querida diarista Marta Lima, cuja presença transforma o ambiente e espalha alegria.
Quem convive com Marta sabe que há algo de mágico em seu trabalho. Ela chega e, em poucos minutos, a pia fica limpa, as roupas lavadas e cuidadosamente guardadas, o chão reluzente e o ar impregnado de um perfume de casa cuidada. No dia em que Marta vem, Lucas acorda mais cedo — como se pressentisse que aquele será um dia especial. A casa se enche de leveza, e a alegria parece acompanhar seus passos.
Marta trabalha com uma mistura rara de resiliência, inteligência e bom humor. Sempre tem uma piada pronta, uma ironia bem colocada ou uma advertência cordial que ensina sem ferir. Sua presença demonstra que o trabalho doméstico vai muito além da limpeza: envolve cuidado, organização da vida cotidiana e, muitas vezes, apoio emocional silencioso às famílias.
Mas para que profissionais como Marta tenham direitos reconhecidos, muitas mulheres precisaram lutar ao longo da história.
Embora a organização das trabalhadoras domésticas tenha raízes ainda mais antigas, com pioneiras como Laudelina de Campos Melo — que, desde a década de 1930, já criava associações voltadas à defesa da categoria —, a luta ganhou força em diferentes estados do Brasil ao longo do século XX, impulsionando a construção de uma consciência coletiva sobre direitos e cidadania.
Na Bahia, destacou-se a militância de Cleusa Maria da Silva, uma das líderes do movimento de trabalhadoras domésticas no estado. Sua atuação foi fundamental para fortalecer sindicatos, organizar a categoria e dar visibilidade às condições, muitas vezes invisibilizadas, dessas profissionais. Foi por meio de lideranças como Cleusa que a categoria conquistou voz política e social, reivindicando direitos básicos e respeito.
Durante décadas, empregadas domésticas trabalharam sem garantias fundamentais que já existiam para outras categorias, como jornada definida, descanso semanal adequado e acesso pleno à previdência social. Essa realidade começou a mudar gradativamente com a mobilização coletiva e, mais recentemente, com avanços legislativos importantes, como a chamada “PEC das Domésticas” (Emenda Constitucional nº 72/2013) e a Lei Complementar nº 150/2015, que ampliaram direitos e reconheceram a dignidade desse trabalho.
Ainda assim, persistem desafios. A informalidade, a desvalorização social e as desigualdades de gênero e raça continuam marcando a trajetória de muitas trabalhadoras domésticas no Brasil. Por isso, lembrar essa história não é apenas um gesto de reconhecimento, mas um compromisso com a continuidade da luta por justiça e equidade.
Ao olharmos para Marta Lima, vemos mais do que uma profissional dedicada. Vemos o resultado vivo de décadas de resistência feminina, de organização coletiva e de conquistas que precisam ser preservadas e ampliadas. Sua alegria cotidiana, sua ética no trabalho e sua humanidade nos lembram que dignidade não é favor — é direito.
E, no gesto simples de arrumar uma casa, Marta também ajuda a reorganizar o mundo ao seu redor.
Maria José Rocha Lima
Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Doutora em Psicanálise; Doutoranda em Educação. Assessora na elaboração do FUNDEB; Assessora da 3ª Vice-Presidência da Comissão Especial da Primeira Infância (2014–2016). Deputada Estadual pela Bahia (1991–1999). Presidente da Casa da Educação Anísio Teixeira.

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