sexta-feira, 09/01/26
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A força da sabedoria na política justa

Ilustração

 

Por Chico Araújo*

Em Provérbios 8, 12-21, Salomão eleva a Sabedoria como princípio estruturante da vida social e política. Ela não é mero ornamento intelectual, mas força vital que sustenta o discernimento, a sagacidade e a reflexão. A Sabedoria denuncia o orgulho, a soberba, o mau comportamento e a boca falsa, pois, como afirma o texto, “o temor a YHWH é odiar o mal”.

No coração da perícope, encontramos palavras que transcendem o tempo:
“Eu possuo o conselho e o bom senso; a inteligência e a fortaleza me pertencem. É através de mim que os reis governam e os príncipes decretam leis justas. Através de mim, os chefes governam e os nobres dão sentenças justas.”

Aqui, a Sabedoria é apresentada como fundamento da autoridade legítima. Max Weber, em sua análise sobre dominação legítima, lembra que o poder só se sustenta quando reconhecido como justo. Salomão antecipa essa reflexão: sem Sabedoria, o governo degenera em tirania ou corrupção.

A Sabedoria não oferece apenas poder, mas prosperidade enraizada na justiça:
“Os que me procuram me encontrarão. Comigo estão a riqueza e a honra, a prosperidade e a justiça. O meu fruto vale mais do que ouro puro, e a minha renda vale mais do que prata de lei. Eu caminho pela trilha da justiça, e ando pelas veredas do direito, para levar riquezas aos que me amam e encher os seus cofres.”

Essa riqueza não é materialismo vulgar, mas fruto de uma ordem justa. Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, afirma que “sem justiça, os reinos não passam de grandes latrocínios”. A Sabedoria, portanto, é o antídoto contra a degradação da política em saque institucionalizado.

Do ponto de vista sociológico, Émile Durkheim nos lembra que a coesão social depende de valores compartilhados. A Sabedoria bíblica é esse valor comum que une fé, ética e política. Sem ela, a sociedade se fragmenta em interesses egoístas. Hannah Arendt, por sua vez, destaca que a política só é digna quando preserva a dignidade humana; e é exatamente isso que Salomão anuncia: a Sabedoria anda pelas veredas do direito, garantindo que prosperidade e honra sejam frutos da justiça.

No Brasil atual, marcado por crises institucionais, polarização e descrédito das instituições, a perícope de Provérbios 8 é mais que uma lição espiritual: é um chamado político e ético. A Sabedoria exige que governantes rejeitem a soberba, o engano e a boca falsa — vícios que corroem a confiança pública.

A aplicação é possível, mas depende de uma conversão cultural e política:

Que líderes reconheçam que o poder não é propriedade pessoal, mas serviço público.
Que a sociedade compreenda que prosperidade sem justiça é ilusão.
Que o temor a Deus, entendido como reverência ao bem e repúdio ao mal, seja traduzido em políticas que promovam equidade, dignidade e verdade.

Como disse Paulo Freire, “não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”. A Sabedoria bíblica, aplicada ao Brasil, deve dialogar com saberes sociais, científicos e populares, construindo uma democracia que não seja apenas formal, mas substancial.

Assim, Provérbios 8 nos lembra que a verdadeira riqueza de uma nação não está no ouro ou na prata, mas na justiça que sustenta sua vida coletiva. Se o Brasil escolher caminhar pelas veredas da Sabedoria, poderá transformar sua crise em oportunidade, sua divisão em unidade, e sua política em serviço ao bem comum.

*Advogado, jornalista e teólogo, autor de “Quando Convivi com os Ratos” (2024) e “Sombras do Poder: As Vísceras da Corrupção no Acre na Operação Ptolomeu” (2025), e “Memórias de Um Repórter – Entre o Mimeógrafo e o Centro do Poder” (2025), pela Editora Social.

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