
Maria José Rocha Lima
Ontem, Therezamaria, sua nora Lucimar Bonfim e eu atendemos a um convite de Dolores Pierson para a celebração do Dia de Reis e a realização de antigas simpatias ligadas à data. A celebração, já especial por seu significado bíblico, histórico e religioso, ganhou novos encantos com os bons augúrios próprios das tradições daquele dia.
Entre convidadas igualmente encantadoras — entre elas, a noiva de um xeique —, Dolores conduziu com graça e doçura os rituais simbólicos. Segundo as promessas de bons presságios, se mastigássemos sementes de romã mergulhadas em vinho branco e, depois, enrolássemos quatro delas em uma nota de dinheiro, a prosperidade nos acompanharia ao longo de 2026.
O encontro do Dia de Reis nos fez especialmente bem. Na véspera, eu havia lido vários contos dos Irmãos Grimm, bem como passagens de suas biografias. Também me detive na história de nossa anfitriã, Dolores Pierson, cuja genealogia remonta a Dorothea Pierson, nascida em 1755, filha de um taberneiro em um distrito da cidade de Kassel, na região de Hesse, Alemanha, na propriedade conhecida como Knallhütte. Filha de Johann Friedrick e bisneta de Isaak, Dorothea cresceu em meio ao constante trânsito de viajantes e hóspedes, o que lhe permitiu ouvir inúmeras histórias, lendas, fábulas e contos de fadas.
Em 1813, já com mais de cinquenta anos, Dorothea foi encontrada pelos irmãos Wilhelm e Jacob Grimm, que percorriam a região recolhendo narrativas populares. Dela, recolheram mais de quarenta contos de fadas. Wilhelm Grimm teria afirmado que haviam encontrado, ali, a melhor fonte de suas pesquisas.
Therezamaria, que não se cansa de “guerra” e carrega sempre a pena da escrita na ponta da língua, parecia profetizar durante o percurso até a casa de Dolores. Falava — como quem costura pensamento e poesia — sobre a importância e a desimportância do tempo, o nascimento, a morte, os encantamentos e os desencantamentos. E recitou, com beleza, o poema “Seiscentos e Sessenta e Seis”, de Mario Quintana:
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo…
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, passaram sessenta anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio,
seguia sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho
a casca dourada e inútil das horas.
Em seguida, encerrou com o “Poema de Natal”, de Vinicius de Moraes, lembrando que fomos feitos para a esperança no milagre, para a participação da poesia, para a consciência da finitude — e, ainda assim, para nascer, imensamente, todos os dias.
Tudo parecia convergir — e até divergir — com delicadeza poética. Ao agradecer o tempo que lhe dedicamos, Dolores Pierson ressaltou o valor desse gesto como algo preciosíssimo. Curiosamente, sem ter ouvido as conversas travadas no carro, ela citou uma pesquisa alemã segundo a qual a doação do tempo é uma das maiores e mais desejadas formas de doação: oferecer tempo a alguém como um valor incomensurável.
E assim, entre romãs, poemas, memórias e afetos, o Dia de Reis se fez celebração do tempo — esse bem raro que, quando partilhado, se multiplica.
Nota biográfica
Maria José Rocha Lima (Zezé) é professora, mestre em Educação pela UFBA e doutora em Psicanálise. Foi deputada no período de 1991 a 1999.



