
Miguel Lucena
Quem nasce pobre quase sempre carrega no berço uma sentença social. Dizem que é destino, preguiça ou falta de esforço. Mentira embrulhada em papel de meritocracia.
A lógica liberal transformou riqueza em prova de virtude. Quem venceu seria talentoso; quem ficou para trás, culpado. Esquecem a escola ruim, o bairro sem oportunidade, a família sem patrimônio, o crédito negado e os juros que comem o futuro antes do almoço.
No Brasil, dinheiro chama dinheiro. O rico pega crédito barato para multiplicar fortuna. A classe média se aperta no cheque especial. O pobre, quando consegue empréstimo, paga juros de agiota com crachá de banco.
A desigualdade não é defeito moral de quem perdeu a corrida. É pista inclinada, largada desigual e juiz comprado pela acumulação.
Por isso, o Estado existe: para encurtar distâncias, abrir portas, distribuir oportunidades e fazer da mobilidade social uma estrada, não uma promessa de campanha.

