quinta-feira, 21/05/26
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Maria José Rocha Lima – Zezé*

Na Terapia Comunitária Integrativa (TCI), ampliar o olhar sobre o sofrimento significa deixar de enxergar a dor apenas como um problema individual e passar a compreendê-la em sua dimensão humana, social, cultural, familiar e comunitária. Quando isso acontece, algo profundamente transformador emerge: a dor deixa de ser um fardo isolado e passa a ser reconhecida como parte de uma história de vida atravessada por afetos, perdas, desigualdades, traumas, resistências e aprendizagens.
Muda, antes de tudo, a forma de interpretar o sofrimento. A pessoa deixa de ser vista como “fraca”, “problemática” ou “incapaz” e passa a ser acolhida em sua trajetória existencial. O sofrimento ganha contexto, memória e significado. A pergunta deixa de ser apenas: “O que essa pessoa tem?” para tornar-se: “O que essa pessoa viveu?”, “Que marcas essa experiência deixou?” e “Quais recursos interiores e comunitários ela possui para enfrentar essa dor?”
Também se transforma a maneira de acolher. Em vez de julgamentos apressados ou soluções prontas, surge uma escuta sensível, respeitosa e humanizadora. A TCI compreende que ninguém se cura sozinho e que a palavra compartilhada, quando acolhida em ambiente seguro, pode reconstruir vínculos, restaurar pertencimentos e fortalecer subjetividades feridas.
Ao ampliar o olhar, percebemos ainda que o sofrimento não é apenas fonte de dor. Ele pode tornar-se também espaço de crescimento, solidariedade e transformação humana. Muitas pessoas descobrem forças interiores justamente nas experiências difíceis, sobretudo quando encontram apoio comunitário, reconhecimento e escuta amorosa.
A crise contemporânea produziu um paradoxo inquietante: nunca a humanidade teve tanto acesso à informação, à tecnologia e aos meios de comunicação e, simultaneamente, jamais se observou tamanho crescimento do sofrimento psíquico, da solidão humana e do adoecimento mental. Vive-se sob intensa pressão: jornadas exaustivas, hiperconectividade, excesso de exposição às telas, ruídos permanentes, ansiedade difusa e vínculos cada vez mais frágeis. Há abundância de conhecimento técnico, mas escassez de sentido existencial, cuidado emocional e saúde interior.
Nesse cenário dramático, dados da Organização Mundial da Saúde revelam que centenas de milhares de pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, evidenciando a urgência de práticas de cuidado que ultrapassem a lógica medicalizante e individualista. O sofrimento silencioso cresce em meio à cultura da performance, da competitividade e da exaustão emocional.
Em contraposição a essa lógica desumanizante, a Terapia Comunitária Integrativa, criada pelo psiquiatra e antropólogo Adalberto de Paula Barreto, vem desempenhando um papel profundamente relevante na reconstrução de vínculos humanos, da escuta solidária e do sentimento de pertencimento. Em recentes discussões de Webinários Internacionais ligados à saúde comunitária, a TCI foi reconhecida como uma das experiências terapêuticas complementares mais significativas da América do Sul, estando hoje presente em mais de 40 países.
No Distrito Federal, esse trabalho vem sendo desenvolvido pelo MISMECDF, presidido por Talita Raminelli, com secretaria executiva de Fátima Nery. No último fim de semana, foram realizados módulos formativos, oficinas e Rodas de TCI coordenados pela terapeuta Helenice Bastos. As atividades foram marcadas pela profundidade metodológica, pelo acolhimento e pela delicadeza na condução dos processos formativos.
As convergências entre a TCI e algumas escolas psicanalíticas mostraram-se impressionantes. Donald Winnicott certamente reconheceria, na horizontalidade freiriana da TCI e em seus espaços de escuta coletiva, elementos fundamentais do cuidado emocional: ambiente seguro, sustentação afetiva, elaboração simbólica das dores e ressignificação das experiências traumáticas sem violar os limites subjetivos de cada pessoa.
Com admirável sensibilidade, Helenice Bastos registrou cuidadosamente cada equívoco, omissão ou fragilidade na aplicação dos protocolos, garantindo rigor técnico sem jamais constranger os terapeutas em formação. Tudo conduzido com humanidade, cautela e profundo respeito às singularidades de cada participante.
Celebrei intensamente a realização da minha primeira Roda de Terapia Comunitária Integrativa. Entre sentimentos de pertencimento, esperança e compromisso coletivo, nós, terapeutas em formação, propusemos a criação de uma Roda permanente de formação continuada e o início da construção do livro Tecendo Laços — expressão viva de encontros, escutas, memórias e afetos que seguem fortalecendo nossa caminhada humana e comunitária.

*Maria José Rocha Lima (Zezé) é professora, mestre em Educação e doutora em Psicanálise. Foi deputada estadual de 1991 a 1999.

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