
Miguel Lucena
O mundo economizaria fortunas em sessões intermináveis da ONU se tivesse contratado, ainda em vida, o artista baiano Wilson Aragão para pôr fim às guerras que teimam em chacinar multidões. Bastaria uma canção.
Em uma única estrofe — dessas que só saem da lavra de um gênio que nasceu em Piritiba, inventor de Capim Guiné e Guerra de Facão — Aragão simplesmente liquidou a bomba atômica, que ele rebatizou, com humor de sertão, de astromba. Sem comitês, sem resoluções diplomáticas: ele encoivarou os rifles, tacou fogo nas fábricas de canhão e decretou que morreria “menos gente” se os conflitos fossem resolvidos à moda antiga, no fio do facão, onde ainda resta a dignidade do olhar, o braço que pesa, o risco compartilhado.
Wilson Aragão fez, na canção, o que os líderes do mundo jamais ousaram fazer na política: aboliu a carnificina industrializada, desmontou o fetiche bélico das grandes potências e transformou a guerra em música de resistência, território onde, no fim, prevalecem o riso, o engenho e a sabedoria dos que sabem que a vida vale mais que qualquer arsenal.
Aragão não só compôs músicas: compôs um modo de ver o planeta, onde até a bomba mais perigosa do mundo pode virar piada. E, por detrás da graça, a lição: se o mundo prestasse mais atenção aos cantadores, talvez não precisasse enterrar tantos inocentes.

