
Miguel Lucena
A seleção brasileira joga sem gosto, como se fosse uma comida feita sem ser refogada, com cheiro e gosto de crua. Aquelas comidas com cheiro de escabiol, remédio para coceira. Falta organização, falta técnica, falta tática e estratégia. Jogadores que a torcida não conhece, alguns que saíram daqui, foram levados para alguma escolinha lá fora e voltaram como jogadores de seleção. Algo fabricado ou fruto de esquemas empresariais. Vestem a camisa canarinha como se fosse um abadá de trio elétrico. Não têm amor pela seleção. Cumprem o dever com enfado. A derrota de 4 a 1 para a Argentina não foi vergonhosa pelo placar, mas pelo descompromisso e enfado dos jogadores do Brasil.
Já não se canta mais o hino com o peito estufado, nem se veem lágrimas nos olhos antes da bola rolar. O suor que antes escorria com orgulho virou suor de obrigação. Os jogadores entram em campo como quem bate o ponto numa repartição mofada, onde o único objetivo é não se atrasar para a resenha no pós-jogo. A camisa, antes símbolo de glória e de histórias que fizeram o mundo reverenciar o nosso futebol, agora parece farda de operário de firma terceirizada — usada com desdém, trocada sem cerimônia, esquecida no vestiário.
Os torcedores, por sua vez, já não gritam. Resmungam. Já não acreditam. Esperam. O futebol brasileiro virou um espetáculo sem alma, sem sal, sem suor. E sem samba. Falta o drible de irreverência, falta a alegria de jogar. O toque virou passe burocrático, o ataque virou protocolo e o gol, se vier, é quase um acidente de percurso.
É como se a seleção tivesse se tornado um produto genérico, feito para atender aos patrocinadores, às cotas de empresários e às vitrines do mercado europeu. Quem brilha no clube, apaga na seleção. Quem nunca brilhou, às vezes veste a camisa só porque alguém importante no bastidor assinou embaixo. E assim seguimos, jogo após jogo, apagando um pouco mais o brilho daquela amarelinha que já fez Pelé sorrir, Garrincha dançar, Zico emocionar e Romário decidir.
O torcedor não é bobo. Pode até continuar ligando a TV, mas assiste com o controle na mão, pronto pra mudar de canal ao primeiro sinal de enfado. Porque ver essa seleção jogar é como morder uma empada e perceber que esqueceram o recheio. Só sobra a massa, seca e desinteressante.