
Miguel Lucena
Sonhei, ontem, que não precisava mais usar meu salário para comprar feijão, farinha, arroz, lanche, gasolina, condomínio — essas miudezas obrigatórias que nos mantêm vivos, mas sempre nos deixam no vermelho.
No sonho, meu salário ficava livre, leve e solto, pronto para investir em CDBs, fundos de renda fixa e até adquirir uns bens móveis e imóveis, como fazem aqueles que nunca veem boleto vencer.
No sono mais profundo, sonhei que havia me aposentado da carreira de delegado da Polícia Civil do Distrito Federal e recebido seis meses de quarentena, igualzinho aos diretores da Caesb e da Terracap.
Um sonho macio, cheiroso, com travesseiro de plumas e contracheque vitaminado.
Mas, no fim do sonho — e é sempre no fim que a verdade aparece —, surgiu um jumento desmarcado correndo atrás de mim. Acordei na carreira, suando, igual pobre quando chega mensagem do banco dizendo: “aviso importante sobre sua conta”.
E percebi que tem pesadelo que é mais realista que o sonho.

