quarta-feira, 11/02/26
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Sobre o tempo…

Ilustração

 

Por Chico Araújo*

O tempo, esse enigma inescapável da existência humana, ressoa em canções, provérbios e sabedorias ancestrais, convidando-nos a uma reflexão profunda sobre sua essência fluida e inexorável. Para abrir essa jornada, recorro a um verso poético do forró nordestino, entoado por Flávio José, o poeta-cantador paraibano que captura a alma do sertão em melodias ritmadas e reflexivas: “Se avexe não / Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada / Se avexe não / Que a lagarta rasteja até o dia em que cria asas / Se avexe não / Que a burrinha da felicidade nunca se atrasa / Se avexe não / Amanhã ela pára na porta da sua casa.” Essa letra, impregnada de otimismo popular, sugere que o tempo não é um inimigo a ser combatido, mas um aliado paciente, capaz de transformar o ordinário em milagre sem qualquer pressa.
Dessa visão otimista e serena, passo naturalmente para o dito popular “O tempo é o senhor da razão”, uma máxima que revela a sabedoria coletiva acumulada ao longo das gerações: com o passar dos dias, a verdade emerge, desmascarando ilusões e reposicionando ações, intenções e fatos em seu devido lugar. Esse provérbio reflete como as sociedades constroem narrativas temporais para lidar com incertezas, onde o tempo atua como um regulador social, mitigando conflitos e promovendo uma justiça coletiva. Argumentava Émile Durkheim ao conceber o tempo como uma categoria social que une comunidades em ritmos compartilhados.
Essa perspectiva social e cultural nos leva, inevitavelmente, às profundezas das Escrituras, onde encontro no Eclesiastes, atribuído ao Pregador – tradicionalmente identificado como Salomão, o rei sábio de Israel –, um libelo memorável sobre os ciclos temporais. Eclesiastes 3, 1-8 proclama: “Debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa: Tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar e tempo para curar; tempo para destruir e tempo para construir; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para gemer e tempo para dançar; tempo para atirar pedras e tempo para ajuntá-las; tempo para abraçar e tempo para afastar; tempo para procurar e tempo para perder; tempo para guardar e tempo para jogar fora; tempo para rasgar e tempo para costurar; tempo para calar e tempo para falar; tempo para amar e tempo para odiar; tempo para a guerra e tempo para a paz.” Esse trecho ilustra a inevitabilidade dos opostos, convidando o homem a discernir os momentos com sabedoria, reconhecendo que o tempo não é caos, mas uma ordem divina que equilibra a existência.
Mas, afinal, o que é o tempo? Essa pergunta fundamental ecoa nas Confissões de Santo Agostinho: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quero explicar a quem me pergunta, não sei.” Essa introspecção metafísica destaca como o tempo varia culturalmente – linear e progressivo nas sociedades ocidentais, cíclico e eterno em tradições indígenas ou orientais –, moldando identidades e rituais ao redor do mundo.
Essa variação cultural nos convida a explorar a subjetividade do tempo: para Henri Bergson, ele é uma duração interior, fluindo como um rio, onde o presente se entrelaça com memórias e expectativas, influenciando diretamente nosso bem-estar mental. Nesse fluxo, a ansiedade acelera sua passagem, enquanto o estado de “flow”, descrito por Mihály Csikszentmihalyi, o expande em momentos de imersão plena, transformando a percepção do tempo em uma experiência expansiva e enriquecedora.
A indagação sobre a natureza subjetiva e cultural do tempo nos remete aos primórdios da filosofia grega, onde pensadores helênicos desbravaram suas dimensões com rigor intelectual. Heráclito de Éfeso, o obscuro, proclamava “panta rhei” – tudo flui –, enxergando o tempo como o fluxo incessante de mudança, onde “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, pois tanto o rio quanto o banhista se transformam a cada instante. Essa visão dinâmica, que antecipa a dialética hegeliana, enfatiza o tempo como agente de devir, dissolvendo permanências e forjando realidades em constante evolução – uma perspectiva que, sociologicamente, explica como culturas se adaptam a transições históricas, resistindo à estagnação.
Prosseguindo nessa linhagem grega, Platão, em seu Timeu, define o tempo como “a imagem móvel da eternidade”, um reflexo imperfeito do mundo das Formas ideais, onde o eterno se manifesta no sensível através de ciclos cósmicos regidos pelo Demiurgo. Para ele, o tempo surge com a criação do universo, medindo o movimento dos astros e impondo ordem ao caos primordial – uma ideia que ressoa antropologicamente nas mitologias gregas, onde Chronos devora seus filhos, simbolizando a devoração inexorável do efêmero pelo eterno, e que psicologicamente nos alerta para a ilusão do presente como mera sombra de realidades atemporais.
Aristóteles, discípulo de Platão, oferece uma definição mais pragmática em sua Física: o tempo é “o número do movimento segundo o antes e o depois”, uma medida quantitativa de mudanças espaciais e causais, inseparável da matéria e do movimento. Essa concepção aristotélica, que influenciou a ciência moderna, destaca o tempo como um continuum mensurável, desafiando paradoxos como os de Zenão de Eleia, que questionava a possibilidade do movimento temporal com dilemas como a flecha que, em cada instante, está parada, ou Aquiles que nunca alcança a tartaruga. Zenão, ao expor essas aporias, revela a tensão psicológica entre a percepção contínua do tempo e sua divisão infinita, convidando a uma reflexão metafísica sobre a ilusão da progressão.
A herança grega, com sua ênfase no fluxo, na eternidade e na medida, enriquece nossa divagação e nos conduz à história do patriarca Abraão, homem de posses em Ur dos Caldeus, que, aos 75 anos, ouviu o chamado de YHWH para deixar sua terra em busca de uma promessa futura (Gênesis 12). Seus planos humanos pareciam falhar em meio a esperas e provações, mas o tempo divino revelou bênçãos extraordinárias – uma descendência numerosa como as estrelas –, provando que o chronos humano cede ao kairós divino, o momento oportuno onde o impossível se realiza. A distinção grega entre tempo quantitativo (chronos) e qualitativo (kairos) – este último como instante propício para ação decisiva – ilumina como o tempo transcende o meramente cronológico.
Retornando aos ensinamentos do Pregador, Eclesiastes descreve esses ciclos de vida e morte, alegria e tristeza, construção e destruição, enfatizando que a existência é um convite ao carpe diem – aproveite o dia –, não como hedonismo vazio, mas como reflexão sábia sobre o propósito de cada fase. Isso ressoa com a visão de Claude Lévi-Strauss sobre mitos que estruturam o tempo humano, ajudando sociedades a navegar transições e encontrar sentido na efemeridade.
Paulo, o apóstolo, aprofunda essa sabedoria em Efésios 5, 16, exortando: “aproveitando o tempo presente, porque os dias são maus.” Aqui, o tempo é um recurso a ser resgatado, não desperdiçado em futilidades, mas investido em virtudes eternas, contrapondo-se à psicologia da procrastinação que rouba o potencial humano.
Cristo, em Mateus 6, 25-34, ensina a transcender preocupações triviais: “Por isso eu digo a vocês: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer ou beber; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa? Olhem os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai do céu os alimenta. Vocês não valem muito mais do que os pássaros? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode prolongar algum tempo a duração da própria vida? E por que ficar preocupados com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém eu digo: nem o rei Salomão, no auge da sua glória, vestiu-se como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vocês, gente fraca na fé? Portanto, não fiquem preocupados, dizendo: ‘Que vamos comer? Que vamos beber? Que vamos vestir?’ Os pagãos é que ficam procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. Pelo contrário, procurem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão dadas a vocês por acréscimo. Portanto, não fiquem preocupados com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Basta para cada dia o seu próprio mal.” A perícope dissolve ansiedades, afirmando que o tempo, sob a providência divina, cuida do essencial.
Outros trechos das Escrituras reforçam essa visão: em Eclesiastes 1, 9, “O que aconteceu, de novo acontecerá; e o que se fez, de novo será feito: debaixo do sol não há nenhuma novidade”, destacando a ciclicidade que combate a ilusão de inovação constante. E em Provérbios 16, 9, “O homem planeja o seu caminho, mas é Javé quem lhe dirige os passos”, sublinhando que nossos projetos temporais são subordinados a um desígnio maior.
Enfim, tudo na vida é questão de tempo – um fluxo que revela verdades, cicla experiências e convida à sabedoria. Ele nos define, desde os gregos até os modernos; sociologicamente, nos une; antropologicamente, nos diversifica; psicologicamente, nos transforma. No fim, o tempo não é um senhor a ser temido, mas um mistério a ser abraçado, guiando-nos para além do efêmero rumo ao eterno.

(*) Advogado, jornalista e teólogo, autor de “Quando Convivi com os Ratos” (2024) e “Sombras do Poder: As Vísceras da Corrupção no Acre na Operação Ptolomeu” (2025), e “Memórias de Um Repórter – Entre o Mimeógrafo e o Centro do Poder” (2025), todos pela Editora Social

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