
Zeugma Santos
Ninguém o viu naquele dia. Sentado na sala abafada, cercado de papéis, olhos na tela. Nem parecia que dali sairia algo importante. Era só um nome, uma digitação, uma linha a mais entre outras tantas. Não parecia urgente. Mas era.
Na UPA, o paciente aguardava. Debilitado, sondado, olhos semiabertos. A enfermeira fazia tempo de relógio com o olhar. A técnica ajeitava o lençol. O motorista do transporte tomava café frio, esperando o nome que não vinha. No hospital, o médico também esperava. Tinha deixado outros atendimentos de lado porque “o paciente da UPA já está vindo”. Mas não veio.
A família do paciente, do lado de fora, perguntava. Inquieta. Atormentada. “Por que meu pai não foi?”. Segurança em alerta, tentando manter a ordem. Não havia resposta. Só o silêncio de quem não sabia onde estava o erro.
Estava lá. Dentro da sala. Quieto. Talvez nem ele soubesse o que não fez.
Não lançou o nome. Um clique que não aconteceu. Uma tarefa esquecida, atropelada, ignorada. E o sistema, inteiro, parou por um nome que não entrou na lista. Por uma função que, aos olhos desavisados, parecia menor. Mas não era.
Porque o transporte não partiu. O médico não atendeu. O paciente não foi tratado. E uma família ficou em desespero.
A saúde não é feita só de médicos, nem só de remédios. É feita de gente. De braços. De funções que parecem invisíveis até o dia em que falham. Até o dia em que o mundo gira em falso, e a máquina emperra.
Naquela sala, talvez ele ainda esteja lá. Pensando que só digita nomes. Sem saber que, naquele dia, o nome que ele não digitou parou o hospital inteiro.
Nossa!
Uma dura e cruel realidade nos hospitais hoje em dia…
Por falta de atenção e profissionalismo, o paciente atrasou seu tratamento