sexta-feira, 03/04/26
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Minhas lembranças infantis da Semana Santa

Ilustração gerada por IA

 

Miguel Lucena

A Semana Santa chegava mansa, como quem não queria perturbar o silêncio das casas nem a fé das pessoas. Era um tempo diferente — até o vento parecia andar devagar pelas ruas de Princesa.
Lembro-me de Zé de Vigó e Terô surgindo na esquina, equilibrando balaios de peixe na cabeça, como se carregassem o próprio sustento do mundo. “Olha o peixe… fresco!”, gritava Zé, com aquela pausa marota que fazia os mais atentos rirem de canto de boca. Eu não entendia tudo, mas sentia que havia ali um segredo de gente grande.
Dentro de casa, a Sexta-Feira Santa tinha gosto de renúncia e simplicidade. Meu pai trazia o bacalhau seco, comprado barato — comida que, diziam, era de pobre, mas que para mim tinha sabor de festa. E havia o bredo, verdinho, cozido no leite de coco, que minha mãe preparava com o cuidado de quem reza com as mãos.
Pelas portas, passavam os do “jejunzinho”. Não eram pedintes de todo dia. Eram figuras quase sagradas, que só apareciam naquela época, como se obedecessem a um calendário invisível da fé e da necessidade.
E havia também as brincadeiras — ou maldades leves — dos meninos da rua. Na roda de conversa, cada um se gabava do que tinha comido depois do jejum. Falavam das traíras, com orgulho, como se fosse banquete de rei. Eu, sem esperar, me adiantei:
— Ainda bem que comi feijão com bredo!
Riram. E eu ri também, meio sem jeito, meio inteiro.
Hoje entendo: não era pobreza, era memória. Não era falta, era raiz. A Semana Santa não era só um tempo de fé — era um tempo de pertencimento, onde até o gosto simples do bredo carregava o sabor eterno da infância.

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