No último Datafolha, Flávio se aproximou do petista nas simulações de primeiro turno e empatou tecnicamente na de segundo

FOLHAPRESS
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou no radar pelo menos quatro temas econômicos que podem atrapalhar o presidente na corrida eleitoral de 2026 e articula um plano de ação para atacá-los, na tentativa de evitar um impacto negativo nas urnas.
A alta dos combustíveis, o aumento na conta de luz, a fila do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e o endividamento das famílias são descritos por auxiliares do presidente como “pontos centrais” que podem despertar a insatisfação da população e respingar nas eleições.
A preocupação cresce no momento em que o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que desponta como o principal adversário de Lula na disputa pela Presidência, ganha terreno nas pesquisas de intenção de voto. No último Datafolha, Flávio se aproximou do petista nas simulações de primeiro turno e empatou tecnicamente na de segundo.
A estratégia do governo é mapear os gargalos e elaborar medidas que ajudem a melhorar a percepção dos eleitores sobre esses temas, com a cautela necessária para não pressionar ainda mais as contas públicas.
Segundo um auxiliar do presidente, se o governo não reagir aos choques nos preços dos combustíveis e na conta de luz, nem atuar para resolver os problemas da fila do INSS e do endividamento das famílias, haverá uma crescente insatisfação que acabará tendo impacto eleitoral.
Hoje, a leitura no Executivo é que, mesmo com baixo desemprego, alta na renda e inflação de alimentos controlada, o governo não consegue alavancar sua popularidade, o que é atribuído em parte ao elevado nível de comprometimento da renda com dívidas. Por isso, aumentos de preços tendem a representar um incômodo adicional.
Por outro lado, um cavalo-de-pau na economia neste momento poderia alimentar a desconfiança dos investidores, impactar o câmbio e acelerar a inflação, atrapalhando o processo de redução da taxa de juros iniciado pelo Banco Central. Ou seja, responder aos problemas “saindo das regras do jogo” poderia surtir o efeito contrário ao esperado.
Nos combustíveis, o governo já anunciou iniciativas para tentar conter a alta do diesel, como a desoneração de PIS/Cofins e a criação de um subsídio de R$ 0,32 por litro. Agora, o Executivo tenta convencer os governadores a dividirem a conta de um incentivo adicional, de R$ 1,20 por litro, na importação do combustível.
A equipe do presidente também discute, de forma preventiva, medidas para amortecer o aumento na conta de luz. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) projeta uma alta média de 8% neste ano, o dobro da inflação, e algumas companhias já começaram a implementar os reajustes. Em Roraima, o percentual ficou acima de 20%.No Rio de Janeiro, a alta média foi de 14,2% para clientes da Enel e de 6,9% na área da Light.
A projeção de acionamento das bandeiras amarela ou até vermelha a partir de junho, às vésperas da campanha eleitoral, também disparou um alerta dentro do governo. As duas indicam maior custo para gerar energia e impõem uma cobrança extra aos consumidores.
Segundo um técnico que participa das discussões, ano eleitoral e bandeira vermelha “são coisas que não combinam”. Por isso, o governo está em busca de medidas que possam mitigar essa situação.
Uma das possibilidades em estudo é diluir esses impactos com o bônus de Itaipu, valor creditado na conta dos consumidores após apuração do saldo na conta de comercialização da energia da usina no ano anterior. A ideia seria usar o recurso para atenuar os reajustes de algumas distribuidoras, mas a medida depende de alteração legal.
Outra opção na mesa é rever a metodologia das bandeiras, para subir os parâmetros que fazem disparar o gatilho de cada bandeira. As discussões, segundo um técnico, ainda estão em andamento.
Enquanto o governo não chega a um desenho final, o secretário nacional de Energia Elétrica do Ministério de Minas e Energia, João Cascalho, enviou um ofício à Aneel pedindo o adiamento dos reajustes para permitir a “eventual consideração de medidas que possam contribuir para uma solução mais equilibrada”.
“O objetivo dessas discussões é examinar alternativas que possam mitigar os impactos dos reajustes tarifários para os consumidores, buscando soluções que preservem o equilíbrio regulatório sem impor ônus excessivo à população”, diz o documento, obtido pela reportagem.
Em relação ao INSS, a situação da fila deixa Lula exposto a críticas, já que a regularização do estoque foi uma promessa de campanha em 2022 no entanto, sua gestão bateu sucessivos recordes de requerimentos acumulados, chegando à marca dos 3 milhões no início deste ano.
O governo estima um custo de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões para regularizar a fila, a depender da velocidade das concessões, mas ainda não incluiu no Orçamento nenhuma verba extra para custear os novos benefícios. Como mostrou a Folha de S.Paulo, o Executivo adiou esse ajuste, o que evitou a necessidade de um bloqueio maior nas despesas no início deste ano.
Segundo interlocutores que participaram das discussões, a JEO (Junta de Execução Orçamentária), colegiado de ministros da área econômica, reconheceu que haverá impacto no Orçamento, mas decidiu postergar esse ajuste enquanto avalia as estimativas.
Apesar disso, o governo já vem adotando medidas de gestão para tentar acelerar as concessões. O Ministério da Previdência Social ampliou a meta dos médicos de 12 para 15 perícias presenciais por dia.
Também alterou as regras do Atestmed, sistema que concede auxílio-doença apenas com atestado médico, para permitir que os requerimentos sejam indeferidos a partir da análise documental. Hoje, se o atestado não permite a concessão imediata do benefício, o segurado é encaminhado para a perícia presencial. A estimativa do governo é que isso tire de 300 mil a 400 mil pessoas da fila.
Segundo um integrante do governo, o Palácio do Planalto emitiu a diretriz de que a fila do INSS tem impacto eleitoral e que a Previdência precisa resolver esse problema.
O governo também discute mudanças para reduzir o custo do rotativo do cartão de crédito, como mostrou a Folha de S.Paulo. Essa seria uma ação de enfrentamento mais direto do problema do endividamento das famílias.

