quinta-feira, 12/03/26
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Carta ao neto


 
*Frutuoso Chaves
 
Querido Miguel. Eu te saúdo, cubro de beijos e torço para que possas aguentar este avô pegajoso por muito tempo além destes teus primeiros anos de idade. Até porque já nos tornamos velhos amigos: eu, que te envolvo desde que nasceste, e tu, que me tens ao lado por uma vida inteira.
 
O motivo desta prende-se ao desejo de te contar umas tantas coisas. Pois bem, houve um tempo em que eu e os de minha geração fazíamos amigos, trocávamos recados e notícias, namorávamos e rompíamos namoro por cartas.
 
Funcionava assim: pegava-se papel e caneta para os escritos que, então, eram envelopados e despachados na agência dos Correios ao custo de um, ou mais selos. Depois disso, cada mensagem seguia por carro, trem, navio ou avião até seu destinatário, conforme fosse a distância que a separasse do remetente.
 
E ficava-se a torcer pela entrega. Não imaginas quantos poemas, crônicas e canções foram feitos com apelos ao carteiro, a fim de que não se atrasasse. Poucas vezes, como naquele tempo, a palavra “saudade” terá sido tão usada.
 
Por sorte, tenho conseguido atravessar os anos e, assim, te falar de velhos costumes. E me ponho a imaginar a tua adolescência e teus primeiros amores quando o Facebook, o WattsApp e a telefonia móvel, como hoje a conhecemos, forem coisas do passado. Que milagres tecnológicos o futuro te reserva? Espero, de coração, que não sejam capazes de tolher a alma e as emoções.
 
Mas deixa eu te contar. Foi por cartas que eu conheci uma menina da Suécia, com quem troquei fotografias e mensagens. Tenho dela, ainda, cartões de natal. A composição dos textos, num inglês ginasiano, me dava um trabalho danado.
 
Outras missivas (havia quem as chamava assim) ligaram-me por meses a fio a uma ou outra namoradinha. Dá para acreditar? Vovó Miriam permite, até hoje, que eu guarde, num fundinho de baú, estes restos de saudade. É, de fato, uma mulher sábia e muito segura de si. Nunca se incomodou com esparsos mergulhos no passado deste sujeito que ela mantém ao alcance das mãos, olhos e sentidos, lá se vão quase 40 anos.
 
Deus te dê uma mulher igual a esta. Mas foi para te falar de cartas e te mostrar como elas eram que eu desencavei essas lembranças que trato de postar, aqui e agora.
 
Sem mais para o momento, despeço-me com o afeto de sempre.
 
Frutuoso.

*Jornalista profissional com passagens pelos jornais paraibanos A União (Redator e Chefe de Reportagem), Correio (Redator e Editor de Economia), Jornal da Paraíba (Editorialista), O Norte (Editor Geral), O Globo do Rio de Janeiro e Jornal do Commercio do Recife (correspondente na Paraíba, em ambos os casos). Também pelas Revistas A Carta (editada em João Pessoa) e Algomais (no Recife).

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