terça-feira, 06/01/26
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A liberdade de entregar tudo a Deus

Ilustração

 

Por Chico Araújo (*)

Abaixem-se diante da poderosa mão de Deus, para que, no tempo certo, Ele os exalte. Lancem sobre Ele toda a ansiedade, pois é Ele quem cuida de vocês. Sejam sóbrios e vigiem! O diabo, inimigo de vocês, anda ao redor como leão que ruge, procurando a quem devorar…” (1Pd 5,6-9).

“Para tudo há um tempo certo debaixo do céu, uma ocasião própria para cada coisa” (Ecl 3,1). “Deus fez tudo apropriado ao seu tempo” (Ecl 3,11). “O destino dos filhos dos homens e o destino dos animais é o mesmo: como morrem estes, assim morrem aqueles; todos têm o mesmo sopro de vida, e o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade” (Ecl 3,19).

Pedro é direto e objetivo. Ensina-nos a livrar-nos de todo fardo cotidiano — ansiedades, preocupações, medos, aflições, dúvidas — e nos remete ao Evangelho de Mateus: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Na passagem, Pedro é incisivo: “Lancem sobre Ele toda a ansiedade, pois é Ele quem cuida de vocês”. O ser humano é, assim, chamado a pedir ajuda ao Criador, a esvaziar-se de si mesmo — especialmente da soberba — e a colocar-se humildemente “diante da poderosa mão de Deus”. Essa atitude de obediência vem acompanhada de uma promessa: no momento certo, Deus exaltará quem se coloca sob sua poderosa mão.

O que Pedro quer nos ensinar? Que devemos lançar sobre Deus todas as nossas ansiedades, e não apenas algumas. Em outras palavras, o ser humano precisa — e deve — aprender a confiar plenamente no Provedor divino, pois é Ele quem cuida de nós.Essa lição nos conduz ao salmista Davi: “Lança o teu fardo sobre o Senhor, e Ele te susterá; nunca permitirá que o justo vacile” (Sl 55,22). Aqui se revela um ensinamento profundo: além de cuidar de nós, o Senhor nos sustenta, ampara e alimenta — não só com o pão material, mas sobretudo com bênçãos espirituais.

Retornando a Mateus (Mt 11,28), convém deter-nos no significado de “fardo” e “jugo”. Fardo é a carga pesada, o peso difícil de suportar. Jugo é a peça de madeira que une dois bois para que puxem o arado ou a carroça no mesmo compasso; no português, chamamos de canga. Simboliza sujeição, obediência ou leis que impõem um caminho. Na época de Jesus, o jugo representava a humilhação imposta aos vencidos pelos romanos. Em sentido figurado, significa submissão, domínio, opressão. No plano espiritual, o jugo é a opressão que a pessoa carrega quando dominada por seus problemas — enfermidades, vícios, dívidas, dependências e outras mazelas do dia a dia.

O homem moderno, imerso num mundo de relações superficiais, mantém o coração sobrecarregado: sonhos adiados, pressões externas, ameaças. Essas situações geram impactos muitas vezes incontroláveis e parecem insuportáveis. Contudo, as lições de Pedro e Davi precisam estar vivas em nossa consciência: é o Criador que nos sustenta (Sl 55,22) e cuida de nós (1Pd 5,7).

Apesar dessas promessas de sustento e cuidado, não nos iludamos: não teremos uma vida isenta de preocupações ou problemas. O próprio Cristo nos adverte: “No mundo tereis tribulações, mas tende bom ânimo: Eu venci o mundo” (Jo 16,33). Se, porém, permanecermos sob a poderosa mão de Deus e n’Ele confiarmos, seremos capazes de enfrentar qualquer sobrecarga, grande ou pequena. Basta seguir o conselho de Pedro: lançar sobre Deus toda ansiedade e depositar n’Ele, unicamente n’Ele, toda a nossa confiança. “Confia no Senhor e faze o bem; habitarás na terra e te alimentarás com segurança. Deleita-te no Senhor, e Ele satisfará os desejos do teu coração” (Sl 37,3-4).

Esses ensinamentos convidam o homem contemporâneo a despir-se da arrogância, da autossuficiência e da confiança excessiva em homens poderosos, conduzindo-o à lapidar lição do profeta Jeremias: “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e afasta do Senhor o seu coração. Será como o arbusto no deserto, que não vê chegar o bem; habitará em lugares áridos no ermo, terra salgada e inabitável” (Jr 17,5-6). Davi reforça: “Uns confiam em carros, outros em cavalos; nós, porém, confiamos no nome do Senhor, nosso Deus” (Sl 20,8).

Outras passagens nos exortam a livrar-nos das ansiedades e entregar nossa vida aos cuidados de Deus: “Não vos preocupeis excessivamente com a vossa vida…” (Mt 6,25-34); “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4; Lc 4,4). Em Lucas 10,38-42, ao visitar a casa de Marta e Maria, Jesus observa que Maria escolhe sentar-se a seus pés para ouvi-lo, enquanto Marta se distrai com muitos afazeres. Ao ouvir a queixa de Marta, Ele responde: “Marta, Marta, andas ansiosa e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”. No mundo atual, muitos, como Marta, distraem-se com status e poder, passando ao largo da melhor parte: depositar plena confiança em Deus.

Para evitar esse erro, além da lição de Pedro, vale recordar os exemplos de Daniel (Dn 6) e Elias (1Rs 17). Daniel, mesmo ocupando alta posição no reino, foi lançado na cova dos leões e na fornalha ardente; Elias, após profetizar seca em Israel, foi sustentado por corvos e, confiando em Deus, anunciou à viúva de Sarepta que a farinha e o azeite não se esgotariam. Daniel e Elias não eram super-homens; eram seres humanos falíveis como nós. O que os distinguia era a confiança absoluta em Deus. Enfrentaram ameaças e sobrecargas, mas, em vez de reclamar, entregaram suas vidas aos cuidados do Criador.

E você, leitor, a quem está entregando sua vida?

(*) Advogado, jornalista e teólogo.

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