sábado, 29/03/25
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A DEMOCRACIA COMEÇA NO COLO DA MÃE

*MARIA JOSÉ ROCHA LIMA

No canal Democracia na Teia, o filósofo Felipe Pondé entrevistou o filósofo Zeljko Loparic, professor da Unicampi e destacado estudioso da obra de Donald Winnicott no Brasil, tendo relevantes contribuições em outros países, especialmente na China.

Pondé perguntou a Loparic:

– O que Winnicott ensina de novo em relação à tradição freudiana?

  A discussão possibilitou algumas importantes reflexões sobre as práticas de intolerâncias e polarizações excessivas nos discursos políticos, nas tentativas de aniquilamento moral constatadas nas redes sociais, que nem Freud explica, mas o pediatra e psicanalista infantil Winnicott pode explicar.

O professor Loparic afirma que Winnicott concebia que as relações sociais começam no colo da mãe. O pediatra chegou a essa conclusão porque se interessava pela psicologia do bebê. Winnicott tinha como uma grande questão o porquê do adoecimento dos bebês nos primeiros dias de vida.  Procurou resposta na psicologia acadêmica da época e nada encontrou. Buscou nos estudos de Freud alguma elaboração que pudesse explicar o adoecimento dos bebês nos primeiros dias de vida, mas lá só encontrou a criança e os seus problemas sexuais. Ou seja, Freud estudava a criança a partir da construção do narcisismo primário, da construção do ego, das relações edípicas.

Winnicott, como pediatra, precisava de ajuda para entender o bebê que adoecia nos primeiros dias de vida, aquele bebê que não conseguia dormir, ficava nervoso, apresentava eczemas na pele, chorava demais. E, assim, começou a se dar conta de que a etiologia desses distúrbios pediátricos e psicológicos, das patologias do bebê, eram resultantes das relações entre bebês e suas mães.

Mãe, aqui, deve ser entendida como uma pessoa humana, não uma pessoa humana como objeto, segundo a psicanálise, mas a mãe/colo. Para Winnicott, no começo da vida, tudo o que o bebê precisa é de uma mãe capaz de mantê-lo na ilusão de serem ambos uma só pessoa, para pouco a pouco se diferenciarem em mãe e filho.

O bebê nasce desintegrado, precisando de acolhimento, proteção, sustento físico e psíquico. A falta do colo, dos braços e do olhar da mãe faz muito mal, gerando sensação de despedaçamento, de estar caindo etc. É a mãe que integra o bebê.

Nesse esforço de entender a psicologia do bebê, Winnicott descobre que o adoecimento do bebê era um fenômeno relacional, estava na relação mãe – bebê. Para ele, essas patologias são decorrentes das “falhas ambientais”. Por exemplo, a mãe que não olha para o seu bebê, que amamenta o bebê olhando para a televisão, para o celular, para a internet, respondendo emails. E há casos de falhas muito mais graves que podem ter como consequência diferentes quadros psicopatológicos.

Ao falar de ambiente, nesta teoria, estaremos incluindo tanto o ambiente físico quanto os aspectos emocionais necessários ao desenvolvimento do bebê, representados por uma “mãe suficientemente boa.” Depois dessa fase de integração, precisamos da mãe que cumpre a função de personificação, trocando a frauda, expondo o bebê à luz, fazendo-lhe experimentar a audição das vozes das pessoas, tocando em cada uma das partes do corpo da criança, permitindo a formação pelo bebê da sua imagem corporal etc.

Todas essas experiências sensoriais são importantes para formação da personificação. Também é fundamental que a mãe apresente os objetos ao bebê, sendo o seio o primeiro deles e objeto de satisfação que permite ao bebê o exercício da onipotência da ilusão de tê-lo criado. E, ainda, é o começo da formação das relações pessoais.

Assim, o pediatra inglês descobre uma psicologia que é pré-edipiana. Na verdade, isso não pareceu a Loparic uma ruptura com a meta-psicologia freudiana, mas Winnicott observou uma psicologia, como sugeriu Felipe Pondé, ainda mais primeva, mais originária do que a de Freud.

Freud havia publicado Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade e Outros Textos, que abordava o ser humano a partir do narcisismo primário até a constituição do ego, instância psíquica capaz de administrar a sexualidade com as suas relações triangulares: bebê-mãe-pai. Já Winnicott não tratou de relações triangulares, mas da dualidade mãe – bebê.  Nesta teoria, é dada ênfase ao meio ambiente, à maternagem, à relação mãe/bebê como essencial ao desenvolvimento e amadurecimento saudável do ser humano.

Ainda o professor Loparic ressalta que Winnicott tomou de Freud a abordagem das relações humanas, mas dizia ele que para o bebê não se trata de sexo, mas é de nascer, de começar a existir, de continuidade da vida, de desenvolver uma relação de confiança. Ele está no colo da mãe para existir, ele precisa deste ambiente para existir, para continuar existindo como alguém, para existir como uma unidade pessoal, como alguém que precisa se relacionar com o ambiente e com o mundo à sua volta, entrar no mundo familiar e dentro da família ser alguém positivo, ativo, criativo e começar a desenvolver capacidades e habilidades para se relacionar com ou outros e com a sociedade.

Aí, Winnicott se afasta não da meta – psicologia freudiana, mas do modelo de saúde mental do bebê. Winnicott dizia “para o meu bebê o que conta é a relação do bebê no colo da sua mãe. A questão é de saúde”, sublinhou Loparic. Quem nunca presenciou o gesto sublime de um bebê devolvendo à sua mãe o seio ofertado, pondo o dedinho na boca da sua mamãe? Trata-se do desenvolvimento de uma relação de mutualidade, troca mútua. Essa relação mãe – bebê, se não for saudável, ou seja, se a mãe não for suficientemente boa, teremos crianças submissas que acatam os comandos da mãe, que não exercitam a sua criatividade, ou crianças que abstraem completamente o ambiente externo, se voltando para si, passando a se relacionar apenas com as suas fantasias interiores, podendo se psicotizar.

Desses cuidados iniciais dos bebês dependem as suas capacidades de se concentrar e deslocar a sua atenção, de administrar os sentimentos, controlar os impulsos, seguir regras e orientações, de se adaptar a uma série de demandas, mas principalmente confiar no ambiente, em si, no outro e até ter fé em Deus.

Então, a democracia se assenta nas capacidades adquiridas no colo da mãe e na relação com a família. A democracia no fundo depende das aquisições do bebê humano no colo da mãe, na família e na escola.

Loparic diz que democracia para ele não é uma questão abstrata. Uma pessoa realmente sadia se insere no ambiente social depois de passar pelo colo da mãe, da família e da escola, com as aquisições necessárias ao convívio social. Ele também chama a atenção para uma aprendizagem muito necessária que o bebê realiza na relação com a mãe para as relações futuras: amor e ódio.

O bebê humano precisa aprender a lidar com essa mãe que ele adora, que ele usa, mas ele se dá conta que está tomando o leite dela, tomando o tempo, que  nem sempre ela está a sua disposição. Ele aprende que nem sempre a mãe é o que ele quer, assim aprende a ser tolerante, ele ama e odeia a mãe, tendo que vivenciar às vezes os seus impulsos destrutivos.

O amor faz com que a gente incorpore, pela admiração e pela identificação, os valores, o jeito de ser do outro. Na família, o bebê vai encontrar o irmão bom e tolerar o irmão chato. Enfim, administrar relações ambivalentes e de tolerância.

O bebê na vida familiar deve aprender que ele também é ambivalente, que ele é bom e mau. Ele deve suportar a sua própria ambivalência.

Perguntado por Felipe Pondé sobre se democracia para o winnicottiano é uma questão de saúde psíquica, Loparic responde que polarização é inevitável, mas o que não é saudável é quando ela é excludente, quando a polarização significa a não comunicação, a impossibilidade de viver junto. Ele diz que numa situação de conflito social uma pessoa saudável vai se colocar de um lado ou do outro, sem que isso signifique a exclusão do outro lado, a satanização, o aniquilamento do outro ou do grupo social. Maturidade é sinônimo de saúde psíquica: uma pessoa saudável é madura, mas no sentido que estamos falando agora significa capacidade de tolerar o amor e ódio com outra pessoa ou com outro grupo social.


Maria José Rocha Lima é mestre e doutoranda em educação. Foi deputada de 1991 a 1999. Fundadora da Casa da Educação Anísio Teixeira e Psicanalista com formação na Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Psicanálise.

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