DF cresce em população, mas trava no acesso ao transporte público

0
Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Capital federal ultrapassou a marca de 3 milhões de habitantes, e, com Entorno, população chega a 4,8 milhões

Nos últimos anos, o Distrito Federal aumentou sua população. Atualmente, mais de 3 milhões de pessoas moram na capital federal. Contando com os habitantes do Entorno, que em suma maioria trabalham e estudam em Brasília, o número passa de 4 milhões. Apesar do indicativo positivo, o crescimento populacional na capital federal gera impactos em áreas essenciais como saúde, educação e especialmente a mobilidade urbana.

O Distrito Federal chegou a marca de 3.009.996 habitantes em 2026, de acordo com o levantamento das Estimativas da População 2026, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Somando com o Entorno, o número chega a 4.805.133 moradores.

Com isso, Brasília se consolidou como a terceira maior população entre as capitais do Brasil, perdendo apenas para São Paulo e Rio de Janeiro. Os dados representam crescimento de 0,44% populacional em relação ao ano passado.

Entretanto, o aumento impacta diretamente a vida dos brasilienses e dos moradores do entorno que migram diariamente para a capital federal para trabalhar e estudar. A expansão gera efeitos em áreas como saúde, educação e em especial a mobilidade urbana. Na avaliação de Paíque Santarém, doutor em Arquitetura e Urbanismo e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), o cenário implica em uma maior necessidade de circulações, mas envolve outros fatores.

De acordo com o especialista, um dos principais problemas está na concentração dos equipamentos públicos em áreas centrais do território. “O determinante dos problemas de mobilidade do DF não se dá na capacidade ou quantidade contingente populacional. O maior problema está vinculado à forma segregada, polinucleada, constituída por segregações e por concentração de equipamentos públicos em algumas áreas. É o fato de que a polinucleação da cidade, que foi feita com a afastar as pessoas do centro, foi constituída em conjunto”, explica.

Quando os candangos chegaram para auxiliar na construção de Brasília, não havia um planejamento habitacional para os funcionários após o término das obras. O projeto urbanístico não considerava a permanência das dezenas de milhares de operários. Isso fez com que os trabalhadores se instalassem nas margens do Plano Piloto, dando início às primeiras cidades-satélites, hoje conhecidas como regiões administrativas.

Essa segregação socioespacial distanciou os habitantes do centro da capital federal, que residem nos arredores, mas se deslocam todos os dias para o centro de Brasília para trabalhar e estudar. Algumas dessas regiões administrativas estão localizadas há mais de 30km do Plano Piloto.

Hoje, a região administrativa mais populosa do DF é Ceilândia, segundo o Censo de 2022 do IBGE. Foram registrados 287.023 habitantes na cidade. Logo em seguida aparece Samambaia, com 218.840 moradores.

Essa dinâmica de centralização gera efeitos na vida dos brasilienses. Segundo dados do Censo, sete em cada dez trabalhadores do DF levam de 30 minutos a duas horas diárias em deslocamento no transporte público, tornando a capital a concentração urbana do país com maior tempo para aqueles que dependem de ônibus. Os usuários de metrô também levam mais de uma hora para se deslocarem.

“Isso gera uma dinâmica em que algumas pessoas, para viver a vida, têm que acordar muito cedo, viajar duas, ocasionalmente até duas horas e meia, três para o trabalho, passar o dia distante de casa e voltar para casa já praticamente para realizar a função de dormir”, analisa Santarém.

Moradores do entorno

Esse cenário se agrava no caso de moradores do entorno que trabalham e estudam no DF. Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada de 2024, realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (Ipedf), apontou que 200 mil pessoas se deslocam para a capital a trabalho diariamente.

Desses, cerca de 122 mil trabalhadores utilizam ônibus. A maior migração é feita por moradores de Águas Lindas de Goiás. Mais de 55 mil pessoas saem do município goiano para trabalhar na capital federal. Em Valparaíso de Goiás, são mais de 42 mil pessoas. Novo Gama e Luziânia saem mais de 24 mil habitantes.

O número daqueles que se locomovem para a capital federal para estudarem totalizam 44 mil pessoas, sendo que aproximadamente 18 mil estudantes utilizam ônibus ou transporte escolar público. Em média, 9 mil estudantes vêm do Novo Gama, seguido de Águas Lindas de Goiás (cerca de 8.300 estudantes) e de Valparaíso e Planaltina, com quase 8 mil cada.

Guilherme Fagundes, estudante de Serviço Social da UnB e produtor cultural faz parte dessa estatística. Morador de Águas Lindas, ele acorda todos os dias às 4 horas da manhã para conseguir pegar o transporte público, no mais tardar, às 4h40. A estratégia é sair o mais cedo possível para evitar o engarrafamento no horário de pico. A rotina, que já dura dois anos, leva embora mais de quatro horas diárias do estudante.

E não é só o tempo que é gasto. “É muito escancarado o jeito que o transporte do entorno é sucateado, é precário. A gente paga um valor muito alto, que torna essa situação muito injusta. A linha de Águas Lindas para o Plano Piloto está custando R$11,75 para um ônibus que não oferece o conforto que deveria. É um valor abusivo. Não deveriam estar cobrando esse valor por um serviço tão sucateado”, diz.

Para o produtor cultural, a rotina escancara a desigualdade estrutural para àqueles que se deslocam diariamente para o DF em busca de sustento. “A gente tem que lutar bastante para conseguir vencer dentro dessa rotina. O cansaço faz a gente querer desistir muitas vezes, achar que não é capaz. Tenho que gastar um terço do que eu recebo em passagem. É um dinheiro que eu poderia estar investindo em estudo, saúde, até em lazer, mas não posso porque tenho que pagar passagem. Isso é muito frustrante, porque caio nessa ideia de comparação das pessoas que moram no Plano, por exemplo”, desabafa.

Para sanar os gargalos, Santarém detalha medidas para a transformação da mobilidade urbana no DF. A primeira está ligada ao modelo de financiamento. “Hoje o modelo de financiamento é feito com essas passagens ultra caras, pagas diariamente pelos moradores. Precisamos de uma política de tarifa zero para o Distrito Federal e o entorno. O morador do entorno chega a pagar 20 reais para fazer o trajeto diário, para vir para cá, isso precisa ser abolido”, defende.

A segunda estratégia é a integração dos transportes públicos. “É preciso uma instância de articulação da mobilidade que vincula o DF e o entorno. As viagens precisam de uma integração, de uma articulação entre elas. Não dá para ficar nesse jogo de ‘diz que me diz’ entre o governo de Goiás, a União e o Distrito Federal e não assumem a responsabilidade”, argumenta.

O pesquisador também defende o aumento da participação popular na gestão e decisão do transporte. “Não tem mais um conselho, um espaço de deliberação, de intervenção. Sobra as manifestações populares como espaço de participação política da população. E nós precisamos de mais integração, de mais participação da população na decisão do transporte”.

Por fim, Santarém sustenta que há a necessidade de construir um sistema único de mobilidade que organize as instâncias municipal, estadual e federal, cada um assumindo o financiamento e operação do serviço. “Essas quatro medidas podem garantir que o governo tenha uma melhor mobilidade, com faixas exclusivas, com ônibus de ótima qualidade, com tarifa zero. São ações que potencialmente possibilitariam que a mobilidade urbana se transformasse nessa região que é tão importante e tão rica para o Brasil”, acrescenta.

 

 

 

Comentar

Please enter your comment!
Please enter your name here