Contas públicas têm pior junho desde 2021 e dívida chega a 81,9%

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Pib contas - (crédito: Caio Gomez)

Em valores, o montante corresponde a R$ 10,809 trilhões. O deficit primário supera projeções do mercado, atingindo R$ 55,31 bilhões em junho, e especialistas veem dificuldades para o governo zerar o rombo fiscal em 2026

O setor público consolidado registrou deficit primário de R$ 55,313 bilhões em junho, o pior resultado para o mês desde 2021 e acima das expectativas do mercado. Ao mesmo tempo, a dívida bruta avançou para 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB), maior patamar em mais de quatro anos, reforçando as preocupações sobre a trajetória das contas públicas em um cenário de crescimento econômico mais moderado e juros elevados.

O resultado primário — diferença entre receitas e despesas, sem considerar o pagamento de juros da dívida — ficou acima da mediana das projeções do mercado, que apontava saldo negativo de R$ 49,3 bilhões. Apesar da leve melhora em relação ao deficit de R$ 56,131 bilhões registrado em maio, o desempenho foi o pior para um mês de junho desde 2021, quando o rombo chegou a R$ 65,508 bilhões. No acumulado de 12 meses até junho, o setor público registra resultado negativo de R$ 1,32 trilhão.

Pelos dados do Banco Central, o governo central — formado por Tesouro Nacional, Banco Central e INSS — concentrou a maior parte do resultado negativo, com deficit de R$ 47,236 bilhões. Estados e municípios tiveram saldo negativo conjunto de R$ 6,609 bilhões, enquanto as empresas estatais registraram deficit de R$ 1,468 bilhão. Entre os governos regionais, os Estados apresentaram deficit de R$ 8,189 bilhões, parcialmente compensado pelo superavit de R$ 1,581 bilhão dos municípios.

Em paralelo, a dívida bruta passou de R$ 10,622 trilhões para R$ 10,809 trilhões entre maio e junho, elevando a relação dívida/PIB de 81% para 81,9%, o maior nível desde abril de 2021. Já a dívida líquida também cresceu, passando de 67,9% para 68,5% do PIB, o equivalente a R$ 9,034 trilhões.

Para Murilo Viana, especialista em contas públicas da Finance Consultoria, os números de junho ainda não comprometem, por si só, a meta fiscal de 2026, mas evidenciam as dificuldades para estabilizar o endividamento brasileiro. Segundo ele, o governo ainda conta com fatores que favorecem a arrecadação neste ano, como o bom desempenho das exportações de petróleo e receitas extraordinárias, além de flexibilizações previstas no arcabouço fiscal para despesas com precatórios, saúde, defesa nacional e ressarcimentos ligados ao INSS.

economia divida bruta governo geral
economia divida bruta governo geral(foto: pacifico)

 

“Há uma perspectiva positiva de cumprimento da meta neste ano, mas isso não significa estabilização da dívida. Mesmo que a meta seja alcançada, ela ainda admite deficit primário, o que dificulta conter o avanço do endividamento”, afirma.

Na avaliação do economista, a deterioração fiscal também reflete problemas estruturais. Ele cita o desempenho das empresas estatais, especialmente dos Correios, que enfrentam perda de competitividade, queda de receitas, necessidade de reestruturação e dificuldades para investir diante da piora da situação financeira.

“O caso dos Correios é o mais grave entre as estatais. A empresa perdeu competitividade para operadores privados, especialmente no segmento de entregas, e hoje enfrenta custos elevados, receitas em queda e necessidade de uma ampla reestruturação”, observa.

Além do resultado primário, Viana ressalta que a trajetória da dívida depende de outros fatores igualmente importantes, como o pagamento de juros e o ritmo de crescimento da economia. “O crescimento do endividamento depende do resultado primário, mas também dos juros e do avanço do PIB. Hoje temos uma economia que começa a desacelerar, despesas obrigatórias crescendo acima do limite do arcabouço fiscal e um cenário de juros reais muito elevados, que torna a gestão da dívida ainda mais desafiadora”, explica.

Na avaliação dele, a estabilização da relação entre dívida e PIB exigiria um esforço fiscal muito maior do que o atualmente projetado. “Para estabilizar a dívida, não basta zerar o resultado primário. O país precisaria gerar um superavit primário efetivo entre 2% e 2,5% do PIB. Hoje estamos muito distantes desse patamar”, afirma.

Além da meta fiscal

Considerada um dos principais indicadores de sustentabilidade das contas públicas, a dívida bruta é acompanhada por investidores e agências internacionais de classificação de risco para avaliar a capacidade de pagamento do país. Quanto maior o endividamento, maior tende a ser a percepção de risco sobre a situação fiscal.

O presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), Haroldo da Silva, avalia que o resultado de junho aumenta a pressão sobre o cumprimento da meta fiscal, embora ainda não a inviabilize. “O resultado deve ser analisado ao longo de todo o exercício. Há sazonalidade na arrecadação e na execução das despesas, mas o deficit acima das expectativas reduz a margem de segurança para o restante do ano”, afirma.

Segundo ele, a rigidez das despesas obrigatórias, a dinâmica previdenciária e assistencial e a dependência de receitas extraordinárias explicam parte da deterioração observada em junho. Haroldo também chama atenção para o aumento da rigidez orçamentária provocado pela liberação de recursos em ano eleitoral.

Ele ressalta que o próximo governo terá de enfrentar o desafio de conter essa trajetória em um ambiente marcado por despesas obrigatórias crescentes, juros elevados e risco de desaceleração econômica. “Os principais riscos continuam sendo o crescimento das despesas obrigatórias, a dificuldade de produzir superavits primários consistentes, juros elevados por um período prolongado e uma economia crescendo menos, o que reduz a arrecadação”, diz.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta semana que o governo federal trabalha para encerrar 2026 com deficit primário zerado e que, “com alguma sorte”, poderá registrar um superavit nas contas públicas.

Apesar da avaliação, Haroldo considera esse cenário pouco provável. “Isso exigiria uma combinação muito favorável de arrecadação acima do esperado, controle rigoroso das despesas, crescimento econômico sustentado e concretização integral das receitas extraordinárias. Mesmo assim, o verdadeiro desafio continuará sendo estabilizar a dívida pública, já que o peso dos juros permanece elevado”, conclui.

 

 

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