De um lado, uma ala pragmática aposta na profissionalização da estrutura, na moderação do discurso. De outro, o núcleo familiar e ideológico
O tom adotado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em uma live nesta semana, na qual elevou as críticas ao ministro Alexandre de Moraes, expôs mais uma vez a disputa pelo rumo de sua pré-campanha ao Palácio do Planalto. De um lado, uma ala pragmática aposta na profissionalização da estrutura, na moderação do discurso e na redução da rejeição. De outro, o núcleo familiar e ideológico cobra acenos mais frequentes às bandeiras caras ao bolsonarismo. O embate atravessa a escolha da vice, a estratégia de comunicação, a coordenação política e a forma de reagir a crises envolvendo Michelle Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Integrantes do PL avaliam que o equilíbrio interno se alterou ao longo da pré-campanha. Nos primeiros meses, o comando esteve mais concentrado no núcleo político capitaneado pelo coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que buscava profissionalizar a estrutura, ampliar alianças e apresentar Flávio a eleitores fora da base bolsonarista.
A sucessão de crises, porém, enfraqueceu esse desenho e fez o grupo familiar e ideológico ligado a Eduardo Bolsonaro voltar a ganhar peso nas decisões, inclusive sobre o tom que o senador deve adotar diante de novos episódios de desgaste.
A divergência ficou mais evidente na forma como Flávio reagiu à decisão de Moraes de suspender por 90 dias suas visitas ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena em prisão domiciliar. Em uma transmissão ao vivo nas redes sociais, o senador acusou o ministro de tentar interferir nas eleições e adotou um discurso mais duro contra ele.
Integrantes da ala pragmática avaliam que a reação aproximou novamente Flávio do discurso de confronto defendido pelo núcleo ideológico, justamente quando parte da campanha tenta ampliar seu alcance para além do eleitorado bolsonarista. Para esse grupo, havia espaço para demonstrar indignação com a decisão, mas o tom da live destoou da estratégia de apresentar o senador como um nome mais moderado.
A comunicação é um dos principais pontos de atrito entre as duas alas. O núcleo pragmático defende mensagens mais calibradas, voltadas à redução da rejeição e ao diálogo com eleitores de centro. Também critica peças de linguagem mais agressiva e direcionadas somente à militância, como um vídeo produzido com inteligência artificial que mostra Flávio em uma operação contra embarcações identificadas com as siglas PCC e CV. Na avaliação desses aliados, conteúdos desse tipo reforçam a identificação do senador com a base mais fiel, mas dificultam a tentativa de conquistar eleitores independentes.
O núcleo ideológico, por sua vez, pressiona por uma comunicação mais combativa, destinada a mobilizar a militância e reafirmar as bandeiras tradicionais do movimento.
Como mostrou o Estadão, a estratégia digital da pré-campanha passou a ser alvo de uma queda de braço entre os dois grupos num momento de recuo de Flávio nas pesquisas. Marinho promoveu mudanças na comunicação após a revelação de que o senador pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, episódio que ampliou o desgaste da candidatura e a discussão interna sobre como responder à crise.
As mudanças, porém, não pouparam o próprio Marinho. Integrantes do PL reconhecem sua capacidade de articulação política, mas avaliam que ele ficou “isolado” à frente de uma coordenação reduzida. Para esse grupo, a pré-campanha precisa incorporar mais lideranças, distribuir responsabilidades e ampliar a participação nas decisões.
As críticas também chegaram ao debate público. Aliados de Eduardo Bolsonaro, como Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Jair Bolsonaro, e Paulo Figueiredo passaram a cobrar mudanças na estrutura da pré-campanha. Wajngarten defendeu uma reformulação mais ampla, da comunicação à coordenação política, enquanto Figueiredo tem criticado a forma como a equipe responde às crises.
A exposição das divergências, no entanto, não é vista por todos como sinal de ruptura. O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), minimiza os embates e afirma que integrantes ligados a Eduardo têm contribuído para a pré-campanha. “Eles têm ajudado em diversos momentos, mas ainda não têm holofote”, diz.
A atuação do grupo ligado a Eduardo também se tornou um dos focos do conflito com Michelle Bolsonaro. Em vídeo, que desencadeou uma crise no bolsonarismo, a ex-primeira-dama afirmou ter sido alvo de uma ofensiva coordenada atribuída ao que chamou de “grupo do exterior”, expressão usada para se referir a bolsonaristas ligados ao entorno do ex-deputado. No mesmo pronunciamento, Michelle acusou Flávio de tê-la “humilhado” e de tentar excluí-la das decisões políticas do partido.
A ala ligada a Eduardo mantém as críticas à ex-primeira-dama, movimento interpretado por aliados de Michelle como uma tentativa de enfraquecê-la politicamente. O núcleo pragmático, por outro lado, defende uma reaproximação e avalia que aprofundar a ruptura representa um risco eleitoral. A leitura é que Michelle conserva influência sobre a militância e capacidade de diálogo com o eleitorado feminino, considerado decisivo para a eleição e no qual Flávio enfrenta resistência maior.
Esse cálculo também pesa na escolha da vice. Embora haja consenso sobre a importância de compor a chapa com uma mulher, a definição do nome abriu uma disputa sobre o perfil da escolhida. A ala ideológica defende opções mais identificadas com o bolsonarismo, como as deputadas Bia Kicis (PL-DF) e Júlia Zanatta (PL-SC). Já o núcleo pragmático avalia nomes vistos como mais técnicos e moderados, entre eles o da ex-presidente da Caixa Daniella Marques.
Para Zanatta, a disputa entre os grupos que orbitam a pré-campanha é natural diante da necessidade de conciliar interesses políticos não apenas na escolha da vice, mas também em áreas como comunicação e alianças. “Porque, obviamente, quando você escolhe um, desagrada os outros”, afirma. Kicis avalia que, apesar das diferenças, Flávio tem buscado preservar a unidade do bolsonarismo em torno da candidatura e do objetivo de vencer a eleição. “Ele tem tentando buscar essa unidade”, diz.
A relação com o STF é outra frente em que o cálculo da pré-campanha começou a mudar. Desde o início, Flávio evitava críticas públicas à Corte. Esse cálculo passou a ser revisto diante das últimas medidas de Moraes, entre elas a busca e apreensão na residência do ex-presidente, o risco de revogação da prisão domiciliar, e, mais recentemente, a suspensão das visitas de Flávio ao pai. A sequência aumentou a pressão para que o senador abandonasse a postura mais contida e reagisse publicamente.
Enquanto o núcleo ideológico defende um enfrentamento mais aberto com o ministro, a ala pragmática avalia que declarações mais duras radicalizam o discurso, dificultam a aproximação com eleitores de centro e comprometem a interlocução com a Corte em eventuais demandas judiciais durante a eleição.
A disputa pelo rumo da candidatura ocorre em um momento de pressão eleitoral sobre a pré-campanha. Pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira, 15, mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou sua vantagem e aparece oito pontos à frente de Flávio Bolsonaro num possível cenário de segundo turno da disputa pelo Planalto.
Estadão Conteúdo

