Desde o dia 2 de março, a ofensiva israelense em território libanês já deixou mais de 2 mil pessoas mortas

Representantes libaneses e israelenses se reúnem nesta terça‑feira (14/4) em Washington (EUA), sob mediação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, para a primeira rodada de negociações diretas de paz entre os dois países em décadas.
O momento pode marcar a história do Oriente Médio e abrir caminho o estabelecimento de relações diplomáticas entre Israel e Líbano. No entanto, o clima é de tensão: na véspera, o líder do Hezbollah, Naim Qassem, pediu o cancelamento do encontro, classificando a iniciativa de “capitulação”.
Pela primeira vez desde os anos 1980 representantes oficiais do Líbano e de Israel estarão frente a frente. Paralelamente, as forças israelenses e o Hezbollah continuam se enfrentando em uma guerra que matou mais de dois mil libaneses, deslocando mais de um milhão de pessoas.
Nesta primeira rodada de negociações em Washington, Israel será representado pelo embaixador no país, Yechiel Leiter. O Líbano será representado pela embaixadora nos Estados Unidos, Nada Hamadeh Moawad.
A delegação dos Estados Unidos será liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio. O grupo ainda conta com a participação do embaixador americano no Líbano, Michel Issa, e o funcionário do Departamento de Estado Mike Needham.
Segundo fontes citadas pelo portal israelense Ynet, a estratégia do país é “conduzir negociações com o Líbano como se o Hezbollah não existisse e seguir com as operações militares contra o Hezbollah como se não houvesse negociações de paz”.
O foco das conversas é o desarmamento do grupo xiita libanês. Segundo informações apuradas pela RFI, oficiais israelenses têm pouca expectativa de que o governo do Líbano tenha capacidade ou obtenha sucesso prático nesta missão.
Ao mesmo tempo, o regime iraniano, principal aliado do Hezbollah, deixa claro que se opõe a este processo. Ali Akbar Velayati, assessor do líder supremo do Irã, declarou nas redes sociais que o primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, “deveria saber que ignorar o papel singular da resistência e do heroico Hezbollah vai expor o Líbano a riscos de segurança irreparáveis”.
“A estabilidade do Líbano depende exclusivamente da coesão entre o governo e a resistência”, declarou Akbar.
O governo libanês e a pressão exercida pelo Irã
Em resposta ao fracasso das negociações entre os Estados Unidos e o Irã em Islamabad, no Paquistão, uma fonte oficial do governo libanês declarou ao jornal Nida al-Watan: “A questão não afetará as negociações diretas entre o Líbano e Israel em Washington”.
Segundo esta fonte, “a presidência do Líbano e o primeiro-ministro libanês conseguiram separar a questão libanesa da iraniana e impediram que seus destinos se entrelaçassem. O Irã não terá permissão para intervir e retomar o controle da situação no Líbano”.
O governo libanês tem buscado se afastar do Hezbollah, o que pode facilitar algum tipo de acordo com Israel, apesar do ceticismo das autoridades israelenses.
Cessar-fogo é descartado por Israel
O chefe do Estado-Maior do Exército de Israel, Eyal Zamir, garante que não há cessar-fogo no Líbano. O posicionamento é apoiado pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e seu ministro da Defesa, Israel Katz.
As declarações podem ter relação também com questões internas de Israel. A população do norte do país mostra insatisfação com o gerenciamento da guerra pelo governo.
Uma pesquisa realizada com os moradores da cidade de Haifa e dos distritos do norte – aqueles mais afetados pelos confrontos com o Hezbollah – mostra que 70% dão uma nota “ruim” ao governo em relação à guerra. Apenas um quarto faz uma avaliação favorável.
Os moradores do norte do país representam cerca de 25% da população de Israel e seu poder político é estimado em 35 das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento israelense.
Ao mesmo tempo, depois de ataques intensos contra o Líbano na última semana, Netanyahu determinou moderação, após sofrer grande pressão internacional, inclusive por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Após a grande destruição causada pelos ataques israelenses em Beirute, com a morte de centenas civis, agora, ao contrário das semanas anteriores da guerra, um ataque contra a capital libanesa ou a Dahyieh, considerado o reduto do Hezbollah, requer a aprovação do próprio Netanyahu.
Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, desde a retomada dos combates em 2 de março, os ataques israelenses mataram 2.055 pessoas, incluindo 167 desde a última sexta-feira. Doze soldados israelenses e dois civis foram mortos pelo Hezbollah no mesmo período, segundo as autoridades israelenses.
Violência contra palestinos na Cisjordânia
Durante a guerra contra o Irã, colonos israelenses mataram a tiros seis palestinos na região. Outros cinco foram mortos por soldados.
A organização de direitos humanos israelense Yesh Din (“Há lei”, em hebraico) documenta esses casos e monitora crimes com motivação ideológica cometidos por israelenses contra palestinos na Cisjordânia.
Segundo a organização, entre 2005 e 2025, 93,6% dos inquéritos abertos pela polícia israelense para investigar atos de violência cometidos por colonos israelenses foram encerrados sem indiciamento.
Entre 2016 e 2024, foram registradas 2.427 denúncias de crimes cometidos por soldados contra palestinos ou suas propriedades na Cisjordânia. Deste total, apenas 552 investigações (22,7%) foram abertas e 23 acusações (0,9%) foram formalizadas.

