terça-feira, 31/03/26
HomeMiguel LucenaO cérebro não processa o que não consegue entender

O cérebro não processa o que não consegue entender

Ilustração gerada por IA

 

Miguel Lucena
Ao assistir a um debate entre um ex-reitor da UnB e uma deputada, no qual ele citava Octavio Paz, fui levado a refletir sobre um limite silencioso da condição humana: não enxergamos aquilo que não compreendemos.
Em O Labirinto da Solidão, Paz sugere que, diante da chegada das caravelas espanholas, muitos povos indígenas não foram capazes de “ver” aquelas estruturas inéditas no horizonte. Não se tratava de cegueira física, mas de ausência de repertório cognitivo. O desconhecido, quando radical demais, simplesmente não se registra.
A metáfora é poderosa e atravessa séculos. O cérebro humano não é um espelho fiel da realidade, mas um filtro. Ele organiza o mundo a partir de referências, experiências e crenças previamente estabelecidas. Tudo o que escapa a esse arcabouço tende a ser ignorado, rejeitado ou reinterpretado de forma distorcida.
É assim na política, na economia, nas relações sociais. Muitas vezes, não é que as evidências estejam ocultas — elas estão à vista, mas fora do alcance da compreensão de quem observa. O indivíduo vê apenas aquilo que sua mente foi treinada para ver. O restante é descartado como ruído, exagero ou fantasia.
Esse fenômeno também explica por que pessoas inteligentes podem sustentar convicções frágeis ou negar fatos evidentes. Não se trata apenas de má-fé, mas de limites estruturais da percepção. O cérebro protege sua coerência interna, evitando o desconforto de rever crenças profundamente arraigadas.
Por outro lado, há também o componente da conveniência. Nem tudo que não vemos é desconhecido — às vezes, é apenas incômodo. Ignorar pode ser mais confortável do que admitir. Nesse ponto, a cegueira deixa de ser involuntária e passa a ser escolha.
O desafio, portanto, é ampliar o campo do visível. Isso exige estudo, escuta e disposição para o desconforto intelectual. Ver o que antes não víamos implica, quase sempre, em abandonar certezas.
E talvez essa seja a maior dificuldade humana: não a incapacidade de enxergar, mas o medo de compreender.

VEJA TAMBÉM

Comentar

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Publicidade -
- Publicidade -spot_img

RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Este campo é necessário

VEJA TAMBÉM